El Mencho, nome verdadeiro Nemesio Rubén Oseguera Cervantes, foi a figura central por trás da transformação do CJNG — o Cartel de Jalisco Nueva Generación — em um dos impérios do narcotráfico mais influentes e violentos do México. Como analista com décadas de leitura do tabuleiro estratégico da região, vejo sua trajetória como um movimento decisivo que redesenhou linhas de influência e colocou em xeque os alicerces da segurança regional.
Nascido no estado de Michoacán e com 59 anos à data dos eventos centrais, Oseguera Cervantes teve uma passagem inicial pelas forças de segurança — uma ironia frequente nas histórias do submundo latino-americano: o conhecimento das estruturas do Estado que depois se converte em vantagem para estruturas criminosas. Nos anos 1990, foi processado nos Estados Unidos por tráfico de heroína e cumpriu uma pena de três anos. Ao regressar ao México, sua ascensão foi rápida e calculada.
No início dos anos 2000, fundou o que se tornaria o Cartel Jalisco New Generation. Sob sua direção o grupo expandiu operações de tráfico de fentanyl, metanfetaminas, cocaína e migração irregular com uma combinação de inovação logística e violência paramilitar. O uso de drones, artefatos explosivos improvisados e táticas quase militares transformaram o CJNG em uma entidade cuja capacidade de projeção se estende para além de fronteiras estaduais: presença relatada em ao menos 21 dos 32 estados mexicanos e atividade em grande parte dos Estados Unidos, segundo avaliações da DEA.
As operações atribuídas ao cartel incluem alguns atos que simbolizam a ruptura com códigos anteriores do crime organizado: o abate de um helicóptero militar em Jalisco, em 2015, e a tentativa de assassinato contra o então chefe da polícia da Cidade do México, Omar García Harfuch — episódio que sublinhou a audácia e a logística do grupo. Esses incidentes não são apenas crimes isolados; representam o reposicionamento de atores violentos como vetores de pressão sobre o Estado, testando a resiliência das instituições.
Para especialistas como Mike Vigil, ex-chefe das operações internacionais da DEA, a ação enérgica das forças armadas mexicanas — conforme informado pela imprensa — enviou uma mensagem clara à administração norte-americana: o México mobilizou capacidades e informações próprias numa operação de alto risco. Ainda assim, Vigil sublinhou que grande parte das informações que possibilitaram esses golpes vieram do aparato militar mexicano, merecendo reconhecimento.
Com a ausência ou neutralização de El Mencho, abre-se um capítulo de incerteza no tabuleiro. A sucessão é incerta; a possibilidade de fragmentação do cartel é real, assim como a chance de um comando substituto reestruturar a organização sem perda imediata de capacidades. Na análise da imprensa internacional, a ausência do líder pode retardar a expansão do CJNG e oferecer uma janela relativa de vantagem ao Cartel de Sinaloa. Contudo, é preciso cautela: a “tectônica de poder” entre esses atores continua volátil, e o vácuo pode gerar redes de violência descentralizadas, difíceis de conter.
Do ponto de vista estratégico, a captura ou eliminação de um líder como Oseguera não garante, por si só, a restauração da estabilidade. A arquitetura do narcotráfico moderno é resiliente; baseia-se em células, fronteiras logísticas transnacionais e mercados consumidores robustos. O que se alteram são as rotas, alianças e custos operacionais — peças que se realinham no tabuleiro conforme pressões internas e externas.
Como observador, insisto na necessidade de políticas que conjuguem repressão seletiva com reforço institucional e cooperação internacional. Movimentos táticos contra um líder geram ganhos, mas sem um redesenho das estruturas que alimentam o tráfico — corrupção, demandas de mercado, fragilidade estatal — o jogo tende a continuar, sob novas peças e estratégias.
El Mencho foi, portanto, desde suas origens até o ápice, um operador que transformou o CJNG em uma força capaz de reescrever fronteiras invisíveis e de desafiar o monopólio da violência estatal. O futuro imediato dependerá tanto da capacidade dos Estados de consolidar informações e ações coordenadas quanto da arquitetura interna do cartel, que poderá se recompor ou fragmentar em múltiplos focos de disputa.






















