Maior do que um simples debate técnico, o confronto atual sobre a liderança europeia desenha um novo movimento no tabuleiro continental. De um lado, Emmanuel Macron propõe um salto institucional: a criação de um novo débito comum — os chamados eurobond — para financiar defesa e tecnologia, além da promoção de uma política industrial baseada na preferência interna, o Buy European. Do outro, cresce a convergência pragmática entre Alemanha e Itália, capitaneada por um conjunto de acordos bilaterais que visam recuperar competitividade e frear a desindustrialização.
Na sua entrevista a meios europeus, entre eles Il Sole 24 Ore, Macron desenhou com a calma de um estratega a necessidade de um “risveglio europeo“: sair do papel de menor influência geopolítica e responder ao que qualificou como “emergência”. Para o presidente francês, a combinação do choque comercial vindo da China e da instabilidade gerada pela nova política externa americana torna urgente a construção de capacidades coletivas. A sua proposta centra-se em quatro linhas de ação: simplificação e conclusão do mercado único, diversificação comercial e de-risking das dependências estratégicas, promoção da preferência europeia (Buy European) e investimento em inovação.
Entretanto, Berlim tem sido reticente quanto à ideia de dívida comum destinada a fins de defesa e tecnologia. Fontes alemãs reiteraram um firme “não” da Chancelaria — reflexo de uma posição cautelosa acerca da mutualização de riscos financeiros. E é precisamente nesse vazio que se tem consolidado um roteiro alternativo: a cooperação direta entre Roma e Berlim, marcada por documentos e encontros práticos, como o documento italo‑alemão sobre o setor automotivo e a reunião entre Merz e Meloni em Roma, seguida de um texto conjunto sobre a competitividade.
Esses movimentos não são meras manobras de gabinete: representam uma tentativa de redesenhar, de forma silenciosa, a tectônica de poder dentro da União, apostando em instrumentos pragmáticos para frear a erosão industrial e reduzir a burocracia que trava investimentos. A estratégia de Merz e Meloni aposta na soberania industrial por meio de medidas concretas — estímulos à inovação, reformas regulatórias e uma agenda comum em Bruxelas —, em contraste com o salto institucional proposto por Paris.
Há também sinais de irritação alemã com atos políticos que consideram contraditórios: a frustração por parte de Berlim pelo voto de Paris contra o acordo Mercosur ilustra que a antiga aliança franco‑alemã já não opera com a mesma coesão de outrora. O resultado é um pluralismo de estratégias, que torna a liderança europeia “contendível” como poucas vezes se viu.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de verificar se a União conseguirá integrar essas opções — a ambição institucional e o pragmatismo bilateral — numa síntese que aumente a sua autonomia: uma Europa que simplifica o mercado único, protege cadeias críticas através do de-risking, promove a preferência europeia (Buy European) e simultaneamente assegura mecanismos financeiros robustos, como os eurobond, para financiar capacidades de defesa e tecnologia.
Como num duelo bem jogado num tabuleiro de xadrez, as peças estão postas. O desafio para os líderes europeus será combinar visão estratégica e realismo técnico, preservando os alicerces frágeis da diplomacia comunitária enquanto procuram transformar discursos grandiosos em políticas capazes de reversão da desindustrialização e de defesa dos interesses geoeconômicos do continente.
Em suma, o confronto entre a proposta de Macron e o eixo Roma‑Berlim não é apenas uma disputa de personalidade: é a expressão de caminhos diferentes para assegurar a relevância da Europa num mundo marcado por deslocamentos tectônicos de poder. O xeque‑mate, se houver, dependerá da capacidade de convergência entre ambição europeia e prudência operacional.






















