Por Marco Severini — A influência do Giubileo desenha um movimento estratégico no mercado religioso italiano, com sinais claros de expansão e reconexão de redes produtivas. Segundo levantamento da organização, as empresas atuantes no setor somam cerca de 3.300 unidades (+10% em relação a 2024), reunindo produtores, distribuidores, artesãos, artistas e escritórios de projeto. O faturamento total projetado para 2025, considerando produção e cadeia de valor, aproxima-se de 800 milhões de euros (+15%).
Esses números foram destacados por Devotio, a única feira na Itália — e a maior no mundo — dedicada a produtos devocionais e serviços religiosos, que realiza sua quinta edição entre os dias 31 de janeiro e 3 de fevereiro na BolognaFiere. A edição confirma o sold-out: em uma área expositiva de 15.000 m² estarão presentes 229 expositores vindos da Itália e de outros 17 países, enquanto são esperados milhares de visitantes de quase 50 nações.
O evento reunirá um leque abrangente de produtos, do culto à liturgia e à tecnologia para templos: crucifixos, rosários, imagens sacras, estátuas e presépios (incluindo impressões em 3D), sinos, incensos, velas, vitrais e mosaicos, cálices e píssides, paramentos litúrgicos e arte sacra, além de sistemas de áudio, soluções para coleta de donativos, mobiliário e tecnologias para igrejas e vestuário clerical.
Valentina Zattini, administradora da Conference Service, organizadora do Devotio, ressalta que “o evento do Giubileo elevou o número de pequenas e médias empresas no setor religioso na Itália e contribuiu para o crescimento do faturamento global”. Acrescenta-se, segundo a organização, o efeito positivo sobre o mercado de artigos devocionais decorrente da eleição do novo Papa, que renovou demanda e visibilidade internacional.
Do ponto de vista geoeconômico, trata-se de um realinhamento discreto porém significativo: o reconhecimento global pelo made in Italy favorece o incremento do export, com ampla distribuição europeia nos grandes santuários — como Fátima, Lourdes, Santiago de Compostela, Czestochowa, Altötting, Mariazell e Medjugorje — e nas comunidades eclesiais de países com tradição cristã. Fora da Europa, a difusão é intensa na América do Sul (notadamente Brasil e México), nos Estados Unidos e em vários mercados africanos.
Na leitura geopolítica, essa expansão revela um duplo fenômeno: por um lado, a consolidação de uma cadeia produtiva culturalmente especializada e resistente; por outro, a reconfiguração de «fronteiras invisíveis» de influência cultural e comercial que acompanham as grandes mobilizações religiosas. É um movimento no tabuleiro cuja força reside tanto na qualidade artesanal quanto na capacidade de adaptação tecnológica — do crucifixo tradicional ao serviço de doações digital.
Para empresas e instituições presentes no Devotio, a feira funciona como oportunidade para apresentar inovações, captar novos clientes, construir parcerias e reafirmar identidades. Em termos industriais e simbólicos, o setor combina alicerces históricos da fé com ferramentas contemporâneas de mercado — um exemplo de tectônica de poder suave, onde arte, religiosidade e economia se encontram.
Em suma, o saldo é positivo: o Giubileo impulsiona um setor que, a partir de pequenas e médias empresas italianas, projeta-se globalmente. E, como num lance decisivo de xadrez, cada movimento comercial e cada novo contrato reconfigura o jogo da influência cultural italiana no cenário religioso mundial.



















