Por Marco Severini — Em um pronunciamento de peso e sem concessões na Universidade de Leuven, onde recebeu o diploma honoris causa, o ex-primeiro‑ministro Mario Draghi afirmou que a ordem global que conhecíamos «falhou». Não se tratou de uma invectiva retórica, mas de uma análise estratégica: a arquitetura que sustentou a paz e a prosperidade europeia mostrou-se incapaz de corrigir desequilíbrios fundamentais gerados pela transição económica e pela ascensão de novas potências.
Draghi recordou o cerne da construção europeia: um quadro jurídico internacional apoiado em instituições críveis e numa proteção coletiva assegurada pelos Estados Unidos. Essa conjunção permitiu à Europa perseguir uma integração econômica profunda e benefícios comerciais internos, enquanto a segurança era, em grande medida, garantida pelo eixo transatlântico. Ainda assim, esse equilíbrio — que foi por décadas o alicerce da estabilidade — passou a apresentar fragilidades quando as linhas entre comércio e segurança começaram a se confundir.
O ex-premier destacou um ponto nodal: a entrada da China na OMC representou uma mudança tectônica. Com a integração de um ator dessa envergadura, o comércio deixou de seguir estritamente princípios ricardianos de vantagem comparada e foi permeado por estratégias mercantilistas que buscaram vantagens absolutas. O resultado foi uma distribuição desigual dos ganhos, processos de desindustrialização em parceiros estratégicos e — crucialmente — a transformação da interdependência em instrumento de pressão.
Na metáfora do tabuleiro, aquilo que antes funcionava como mútuo contenimento converteu‑se em alavanca de influência: dependências críticas passaram a ser potencialmente instrumentalizáveis. E a arquitetura multilateral, sustentada pela fé nos benefícios mútuos do comércio, não tinha mecanismos eficazes para corrigir esses desvios. Em suma, o sistema não fracassou por ser uma ilusão; fracassou por não se adaptar às novas geometrias do poder.
Para Draghi, o diagnóstico não é uma fatalidade sem remédio: o risco real é o que substitui a ordem anterior. Um mundo com regras mais fracas e fluxos comerciais menores será doloroso, mas administrável. O problema é o vácuo que se abre — rivalidade acirrada entre grandes potências, uso das dependências como arma e pressões comerciais que atingem aliados. Nesse contexto, o papel dos Estados Unidos mudou de guardião incontestado para ator que, em sua atual postura, realça custos acumulados e aplica medidas que podem conflitar com os interesses europeus, inclusive através de tarifas e condicionamentos estratégicos.
Qual deve ser a resposta europeia? Draghi defendeu um movimento de realismo estratégico: reforçar a autonomia estratégica da União Europeia sem renunciar às alianças transatlânticas; investir em capacidades industriais críticas, segurança energética e defesa; diversificar cadeias de fornecimento e restabelecer mecanismos de governança capazes de remediar desequilíbrios. Em termos de diplomacia e poder, tratam‑se de movimentos no tabuleiro que exigem coesão interna e visão de longo prazo.
Como analista que observa a cartografia das influências, acrescento: a Europa precisa agora combinar prudência institucional com audácia pragmática — consolidar alianças, prevenir rupturas industriais e moldar, na margem, um novo conjunto de regras que evite a substituição da velha ordem por uma arquitetura de domínio e fragmentação. O desafio é arquitetônico e estratégico: redesenhar, pedra por pedra, os alicerces da sua soberania coletiva.
Ao receber a honraria em Leuven, Draghi não fez um discurso de circunstância, mas traçou um diagnóstico e ofereceu, implicitamente, um manual de jogadas para uma era em que o tabuleiro global é menos previsível. Cabe à Europa decidir se será jogador passivo das novas forças tectônicas ou se moverá com união e método para preservar um espaço de estabilidade e regras.






















