Dissonância cognitiva e propaganda: como o Ocidente conta a Rússia, a guerra e a geopolítica enquanto a realidade pressiona
Por Marco Severini — Espresso Italia
Na narrativa pública ocidental tornou-se frequente um padrão que, em termos estratégicos, revela mais do que simples imprecisão: a dissonância cognitiva opera hoje como ferramenta deliberada de comunicação. A Rússia é talvez a ilustração mais nítida desse fenômeno: simultaneamente retratada como um Estado arcaico, quase folclórico, com uma economia reduzida à anedota, e ao mesmo tempo apresentada como risco existencial, capaz de subverter a estabilidade da OTAN e manter o mundo sob coação pelo seu arsenal nuclear. Duas imagens logicamente incompatíveis são oferecidas sem qualquer constrangimento ao público.
O paradoxo iraniano e a coerência perdida
O mesmo esquema replicase quando se fala do Irã: tratado como uma teocracia “cada vez mais frágil” e, em paralelo, descrito como uma máquina repressiva capilar e altamente eficiente. Contudo, eficácia repressiva exige coesão das forças armadas, controle dos aparelhos de segurança e, ao menos, uma reserva de consentimento social ou de passividade. Exigir que o leitor aceite simultaneamente o colapso iminente e o Estado onipotente é pedir a suspensão do princípio elementar da coerência.
Propaganda clássica: rude, mas coerente
No século XX a propaganda europeia, embora muitas vezes brutal e caricatural, mantinha uma coerência interna. O inimigo era inferior; quando os fatos contrariavam a narrativa, recorriase à censura ou ao atraso informativo — raramente à contradição simultânea. A rendição de Paulus em Stalingrado é um exemplo paradigmático: a notícia foi reinterpretada, deslocando-se a ênfase para o heroísmo enquanto se exigia menos que o público aceitasse duas versões opostas da realidade.
A evolução estadunidense da manipulação
O modelo contemporâneo tem raízes profundas nos Estados Unidos, onde técnicas sofisticadas — psicologia comportamental, Programação Neurolinguística (PNL), marketing político — foram institucionalizadas. A crescente militarização das ciências sociais, inserida em estruturas do Pentágono e da inteligência, converteu a propaganda numa arte de engenharia cognitiva. A utilização sistemática da dissonância cognitiva deixa de ser um acidente retórico para tornar-se uma técnica consciente.
Uma tortura mental de baixa intensidade
Submeter populações a fluxos contínuos de mensagens contraditórias equivale a uma forma de desgaste cognitivo. É uma pressão psicológica de longa duração que reduz o espaço do pensamento crítico e fortalece a autoridade das fontes oficiais. Não surpreende que estas técnicas funcionem com mais eficácia do que antes: o repertório de competências críticas da massa aparenta declinar, apesar do aumento formal do nível educacional.
Implicações geoestratégicas e o tabuleiro futuro
Como analista que observa o tabuleiro de xadrez do poder, reconheço que esta tática tem objetivos claros: moldar percepções para facilitar manobras diplomáticas e militares, proteger aliados frágeis e justificar compromissos que redesenham fronteiras de influência invisíveis. No entanto, o custo é alto. Ao corroer a coesão epistemológica da sociedade, a técnica enfraquece a capacidade de resposta democrática e de formação de políticas pública robustas.
Em resumo, a combinação de propaganda sofisticada e dissonância cognitiva altera as regras do jogo estratégico. Quem governa percepções controla o tempo político; quem controla o tempo político consegue manobrar no tabuleiro. A questão que fica é se os alicerces dessa diplomacia baseada em aparência resistirão ao teste dos fatos — ou se a realidade, sempre tectônica, acabará por redesenhar as fronteiras do poder.
















