Por Marco Severini — Em um movimento que pode redesenhar aspectos da cultura laboral financeira, um processo histórico será julgado na próxima semana na corte federal de Nova York envolvendo questões centrais sobre o direito ao sono e as exigências do investment banking.
De um lado do tabuleiro está a consultoria de alto perfil Centerview Partners. Do outro, a jovem banqueira Kathryn Shiber, demitida três semanas após sua contratação, em 2020. O cerne da disputa: Shiber havia negociado, como condição de trabalho, a garantia de nove horas de sono por noite devido a diagnósticos de transtornos de humor e ansiedade, comprometendo-se a estar disponível nas demais quinze horas diárias.
Segundo os autos, o acordo constou na proposta inicial de emprego. Porém, pouco tempo depois, o diretor operacional da empresa a repreendeu por pleitear tal condição, considerando incompatível com a função de analista em um mercado que exige turnos imprevisíveis. A dispensa foi concluída por videoconferência. Em resposta, Shiber entrou com ação alegando discriminação em razão de sua deficiência e requerendo indenização milionária por danos emocionais e lucros cessantes — alegando que a rescisão comprometeu permanentemente sua carreira no setor.
O juiz federal Edgardo Ramos determinou, em outubro passado, a abertura do procedimento, notando que existe um debate legítimo sobre se a disponibilidade em horários intempestivos é de fato um requisito essencial do cargo de analista. Em narrativa que lembra a análise de um enxadrista frente a um lance controverso, a questão chave é se esse requisito é uma necessidade objetiva do papel ou parte de uma cultura setorial aceita sem contestação.
Em sua defesa, a Centerview sustenta que a solução concedida a Shiber foi temporária e que, como prática corrente no mercado, jovens profissionais costumam cumprir jornadas longas e imprevisíveis próprias do trabalho bancário de investimento. A empresa argumenta ainda que Shiber desconectou-se à meia-noite sem avisar dois superiores com os quais trabalhava em uma apresentação — fato que teria precipitado sua demissão.
Especialistas legais ouvidos pela imprensa acrescentam nuances ao tabuleiro jurídico. John Jacobi, professor da Columbia Law School, afirmou que a discussão gira em torno da essencialidade da disponibilidade noturna. Katherine Macfarlane, especialista em normas sobre deficiência da Syracuse University College of Law, qualificou como exagerado alegar que empregados devam estar acessíveis 24 horas por dia.
Há também uma dinâmica institucional a considerar: recursos sob o Americans with Disabilities Act são frequentemente arquivados por tribunais, mas cada caso desenha-se com particularidades factuais que podem alterar o equilíbrio do veredito. Este processo, por sua natureza simbólica, é um movimento decisivo no tabuleiro mais amplo da tensão entre produtividade extrema e direitos básicos de saúde no coração financeiro global.
Enquanto o sistema jurídico avalia se o sono é um privilégio ou um direito trabalhista passível de proteção legal, o episódio expõe os alicerces frágeis da diplomacia corporativa diante de novas reivindicações por condições de trabalho compatíveis com a saúde mental. A decisão de Nova York poderá ter repercussões que ultrapassam a sala de audiências, influenciando práticas e expectativas em centros financeiros onde a tectônica de poder determina ritmos e vidas.






















