Por Marco Severini — A trajetória do Irã no século XX pode ser lida atravessando uma palavra-chave: Shah. Curta, solenemente imperial, essa palavra foi, na prática, a máscara que permitiu a transformação de um capitão do exército em monarca e, depois, em um regime autoritário que a Revolução iraniana de 1979 há muito tempo repudiou.
Reza Khan — mais tarde conhecido como Reza Shah Pahlavi (1878–1944) — não nasceu sob a luminária do poder. Era um soldado de origem humilde, promovido na famosa Brigada cossaca persa, onde se notabilizou pela disciplina rígida e por métodos de repressão que não evitavam a violência. A sua ascensão é um movimento de xadrez: rápido, calculado e capaz de redesenhar, de uma só vez, a configuração das peças sobre o tabuleiro iraniano.
Em 1921, Reza Khan entra em Teerã com um golpe militar que reordena o espaço político. Rapidamente ocupa a pasta da Defesa, torna-se primeiro‑ministro e, em 1925, consuma o passo simbólico decisivo: encerra a longa era da dinastia Qajar e proclama a dinastia Pahlavi, assumindo o título — estrategicamente escolhido — de Shah. Essa escolha não é apenas honorífica; é uma operação de narrativa política. Adotar o título de Shah reconecta a figura pessoal do novo governante a um imaginário pré‑islâmico e imperial — Ciro e Dario são evocados não apenas como memória, mas como alicerces simbólicos que conferem ao regime uma ilusão de continuidade e legitimidade.
O cálculo precisava, porém, de apoio externo. Um Irã geoestrategicamente vital e fragilizado atraiu o interesse britânico, que via em Reza Shah um contrapeso ao caos político. A sua modernização autoritária, centralizadora e laica reconfigurou o território interno: infraestrutura, burocracia estatal e forças armadas ganharam novo desenho, ao custo de sufocar mediadores tradicionais de poder — clero, elites locais e mercadores do bazar.
O tabuleiro mudou de novo em 1941. Sob pressão anglo‑soviética, num contexto de Segunda Guerra Mundial e de temores quanto a influências pró‑alemãs, Reza Shah foi forçado a abdicar. O trono passou ao filho, Mohammad Reza Pahlavi, que herdou não apenas o título, mas uma dinastia cuja origem foi, de fato, uma usurpação militar. A herança simbólica continuou a operar: a sucessão transformou a ruptura em aparência de continuidade.
Mohammad Reza, porém, enfrentou fragilidades próprias. Nos anos cinquenta, a sua sobrevivência no poder tornou‑se dependente de intervenções externas: o golpe de 1953 — apoiado por agência ocidentais — restabeleceu plenamente sua autoridade após a crise desencadeada pela nacionalização do petróleo e pelo primeiro‑ministro Mohammad Mossadegh. A partir daí, a tectônica de poder do regime se fixou numa aliança com os interesses anglo‑americanos e num aparelho repressivo que, com a SAVAK, exemplificou a face mais dura do regime.
O governo Pahlavi promoveu reformas econômicas e sociais — a chamada “Revolução Branca” — que modernizaram aspectos do país, estimularam a indústria e ampliaram direitos civis em certas áreas. Mas o preço foi elevado: centralização autoritária, corrupção, desigualdade crescente e uma negligência sistemática dos canais legítimos de representação. A metáfora do xadrez volta: quanto mais o monarca tentava consolidar peças ao seu redor, mais fragilizou os alicerces naturais da diplomacia interna. O resultado emergiu de forma dramática em 1979, quando uma revolta de ampla base derrubou o regime e forçou o Shah ao exílio — e, aos olhos de muitos iranianos revolucionários, à desonra histórica, equiparando‑o a figuras execradas como Yazid.
A história da dinastia Pahlavi é, portanto, uma lição sobre as limitações do poder construído por narrativa e força bruta. A operação simbólica que transformou um militar em Shah funcionou durante décadas, sustentada por apoios externos e por medidas modernizadoras. Mas, quando as instituições civis foram suprimidas e a legitimidade deixou de ser cultivada internamente, a arquitetura do regime revelou fissuras — até o colapso.
Para o analista da geopolítica contemporânea, a experiência Pahlavi continua a oferecer ensinamentos: no tabuleiro das relações internacionais, legitimação simbólica e apoio externo podem mover peças decisivas, mas a estabilidade de longo prazo requer que os alicerces da diplomacia doméstica sejam robustos. Sem isso, qualquer construção se torna efêmera — um castelo de peças que, quando pressionado, desmorona.
Imagem: um pano de fundo histórico e político que liga o passado imperial às convulsões do século XX iraniano, marcado por intervenções, modernização forçada e a resistência que, por fim, redesenhou as fronteiras invisíveis do poder.





















