Por Marco Severini — Em um movimento que mistura cautela diplomática e firmeza estratégica, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, declarou que Copenhague está disposta a manter um diálogo construtivo com aliados sobre a segurança da Groenlândia e do Ártico, incluindo iniciativas norte-americanas como o chamado Golden Dome. Ao mesmo tempo, porém, a chefe de governo deixou claro que qualquer negociação deverá respeitar inexoravelmente a integridade territorial e a soberania da ilha.
A declaração de Frederiksen surge na esteira de um quadro de entendimento anunciado entre o secretário-geral da NATO e o presidente dos EUA sobre o uso de instalações militares na Groenlândia. Para a premier dinamarquesa, o diálogo pode e deve abarcar temas políticos amplos — segurança, investimentos e dimensões econômicas —, mas não pode, em hipótese alguma, incluir a transação da soberania da ilha.
“Podemos negociar todos os aspectos políticos: segurança, investimentos, economia. Mas não podemos negociar a nossa soberania“, afirmou Frederiksen, sublinhando que foi informada de que tal princípio fundamental não foi colocado em discussão pelos interlocutores estrangeiros. A mensagem é clara: a agenda cooperativa do Ocidente no Ártico encontra limites rígidos nos alicerces do direito internacional e da vontade popular groenlandesa.
Em termos de coordenação transatlântica, Frederiksen ressaltou que a Dinamarca manteve um diálogo próximo com a NATO e que ela própria tem conversado regularmente com o secretário-geral da aliança — um canal essencial para alinhar percepções sobre a tectônica de poder que molda o Ártico contemporâneo.
Complementando o quadro, o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, afirmou em entrevistas que a questão da soberania da Groenlândia não foi levantada durante suas conversas com o presidente dos EUA. Rutte enfatizou que o foco dos encontros tem sido a proteção desta vasta região ártica, onde mudanças geopolíticas e climáticas aceleram a presença de atores externos, em particular da China e da Rússia.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um duplo movimento: por um lado, reforçar a cooperação militar e logística entre aliados para responder ao aumento da atividade estratégica na região; por outro, preservar os limites jurídicos e políticos que impedem uma redifinição aberta da soberania. É, na linguagem dos tabuleiros, uma jogada que busca ampliar o alcance operacional sem sacrificar os quadrados centrais do poder estatal.
Para observadores, a situação realça a importância de construir mecanismos multilaterais que conciliem interesses de segurança com os direitos das populações locais e a lei internacional. A Groenlândia, com recursos estratégicos e posição geográfica sensível, permanece um ponto de encontro entre ambições externas e prerrogativas internas — um pequeno reino no grande jogo do Ártico.
Em última instância, a posição de Copenhague aponta para uma diplomacia que joga para ganhar sem comprometer os princípios fundamentais: o reconhecimento de que a proteção coletiva do Ártico passa pelo respeito à integridade territorial e pela inclusão das vozes groenlandesas na tomada de decisões que lhes dizem respeito.






















