Por Marco Severini — Em um momento que remete a um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico, a diáspora iraniana em Los Angeles reuniu-se nas ruas para celebrar o anúncio da morte de Ali Khamenei, notícia divulgada pelo ex-presidente Donald Trump. As cenas, capturadas no bairro de Westwood — conhecido como Tehrangeles — mostram pessoas com bandeiras, músicas e gestos de alívio e catarse coletiva.
Em meio a lojas persas, livrarias em farsi e mercearias, dezenas de iraniano-americanos expressaram sentimentos contrastantes: alegria pela possibilidade de um novo capítulo, mas também apreensão diante do risco de escalada militar. Roozbeh Farahanipour, proprietário de um restaurante na região, resumiu a ambivalência de muitos: “Ninguém ama a guerra”, disse ele à AFP, lembrando o recente “massacre de milhares de pessoas” que, segundo ativistas e membros da comunidade, deixou o tecido social do país em ruínas. “A República Islâmica criou uma situação em que parte do povo iraniano chegou a suplicar por intervenções externas”, acrescentou.
Farahanipour, que fugiu do Irã em 2000 após participar de protestos estudantis, evoca memórias traumáticas das intervenções em Iraque e Afeganistão. “Vi cenas iniciais de celebração nas ruas de Bagdá; depois vimos como aquilo terminou”, afirmou, desenhando com palavras a cartografia das consequências que resultam de choques entre potências.
Los Angeles abriga cerca de 200.000 iraniano-americanos, o que torna a metrópole californiana o maior polo da diáspora no mundo. Em Atlanta e em outras cidades dos Estados Unidos, membros da comunidade também se reuniram, reagindo não apenas à notícia em si, mas ao que ela representa: uma possível ruptura dos alicerces frágeis da diplomacia regional.
Para muitos, o ataque — descrito por alguns participantes como intervenções americanas e israelenses — foi percebido não como um ato de agressão, mas como um impulso por libertação. A artista Sherry Yadegari afirmou que a diáspora vê a ação como uma “operação de salvação do Irã” destinada a libertar cerca de 90 milhões de habitantes. Nyloufar Warner, emocionada, descreveu mensagens de família no Irã e lágrimas de alegria pela ideia de um futuro retorno em paz.
Como analista com foco em estabilidade e Realpolitik, insisto em olhar além das cenas imediatas. Há aqui um redesenho de fronteiras invisíveis: a morte de um líder carrega impacto simbólico e prático. Pode abrir janelas políticas internas, fragmentar coalizões no poder e gerar novas disputas de sucessão, com riscos de vacância de autoridade que atores regionais e globais rapidamente tentarão preencher.
Se por um lado as celebrações traduzem um clamor por liberdade entre exilados, por outro existe o risco concreto de que a escalada militar se transforme em um ciclo conflituoso sem fim. A história recente mostrou que intervenções externas muitas vezes reconstroem ordens políticas distintas das esperadas pelos que comemoram hoje.
Portanto, ao observarmos estas celebrações na diáspora, devemos considerar duas camadas simultâneas: a humana, de alívio e esperança por mudança democrática, e a estratégica, em que potências recalibram posições e buscam assegurar interesses num tabuleiro em rápida mutação. O futuro do Irã e da região dependerá da capacidade dos atores internacionais de acomodar transições internas sem destruir os frágeis alicerces da convivência regional.
Em suma, a imagem das ruas de Los Angeles — pessoas beijando retratos, erguendo camisetas com slogans como “Make Iran Great Again” e exibindo fotos de Khamenei com a palavra “eliminado” — é ao mesmo tempo um testemunho de sofrimento, uma demanda histórica por liberdade e um alerta sobre a complexidade da intervenção externa. O desafio agora será transformar a euforia momentânea em um processo político que ofereça segurança, justiça e governabilidade ao povo iraniano.






















