Nas últimas semanas, testemunhamos — sem euphemismos — um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico que revela os alicerces frágeis da diplomacia ocidental. Declarações públicas, tomadas de decisão e classificações políticas mostram um padrão coerente: uma ordem que se diz civilizada mas age como serva de interesses hegemônicos, comprometendo princípios que outrora legitimavam a sua autoridade moral.
Em Davos, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, confessou ter atuado para estrangular a economia do Irã, provocando inflação e a desvalorização da moeda nacional — um reconhecimento de atos que traduzem fome econômica como instrumento de guerra. A admissão, passada quase despercebida pela cobertura institucional dominante, ecoa declarações anteriores de líderes como Netanyahu e Pompeo, que incentivaram rebeliões interiores ao sugerir a presença de agentes externos operando em solo iraniano.
Ao mesmo tempo, observamos a estranha e persistente seletividade moral nas reações das altas autoridades europeias. O ministro italiano Antonio Tajani, por exemplo, declarou que a carnificina no Irã seria idêntica à cometida em Gaza, e alinhou-se com colegas europeus na decisão de classificar um ramo do exército iraniano, os Pasdaran, como movimento terrorista. A pergunta tática e retórica que fica no ar é: se a lógica de equivalência é verdadeira, cabe então propor a mesma rotulação ao IDF?
Não se trata aqui apenas de uma disputa semântica. Trata-se de entender como, desde os anos 1990, um redirecionamento do multilateralismo que foi a base do pós‑Segunda Guerra Mundial vem sendo desfeito. As chamadas “guerras de exportação da democracia” lançadas pela administração Bush, depois adotadas e adaptadas por sucessivos governos norte-americanos, encontraram apoio político entre alas dos partidos europeus — incluindo setores que se reivindicam socialistas. Síria, Líbia, as primaveras árabes, Ucrânia, Gaza, Venezuela, e as constantes ameaças a países como Irã, México e Cuba compõem um fio vermelho de um imperialismo euro-atlântico que tem efeitos humanitários devastadores.
Essa sequência de intervenções não apenas produz vítimas; ela entorpece e corrói o direito internacional, substitui tradições humanistas — do cristianismo à herança iluminista — por um excepciolismo hegemônico que valida o decisionismo como única linguagem política possível. Em termos estratégicos, estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis: não apenas territórios, mas esferas de soberania, normas e legitimidade.
O filósofo alemão Hauke Ritzs, em seu ensaio Por que o Ocidente odeia a Rússia (Fazi), chama a atenção para uma revolução cultural instrumentalizada por serviços de inteligência — um fenômeno documentado com base em arquivos agora desclassificados. A longo prazo, essa engenharia cultural contribui para um pensamento político fragilizado, um terreno fértil para o que se poderia chamar de pensamento fraco global, onde a capacidade de crítica e de resistência institucional é esvaziada.
Como analista que privilegia a estabilidade das relações de poder, proponho uma leitura que vá além da indignação retórica: é preciso reconstituir as instituições multilaterais, restaurar o equilíbrio entre poder e lei, e recobrar a ideia de que a política externa não pode prescindir de ética. Em termos de estratégia, é hora de deslocar o foco do espetáculo técnico da dominação para a arquitetura clássica da diplomacia — sólida, durável, capaz de albergar diferenças sem recorrer à coerção extrema.
Se o Ocidente pretende conservar alguma autoridade moral, precisa primeiro aceitar a autocrítica como movimento político. Sem ela, continuará a jogar no tabuleiro internacional como um jogador que confunde a vantagem momentânea com a vitória civilizacional, sem perceber que, ao corroer as regras do jogo, mina a própria mesa onde o poder se apoia.






















