DAVOS — Sob a presidência inédita de Larry Fink, da BlackRock, no lugar do fundador Klaus Schwab, o Fórum de Davos assumiu um tom menos decoroso e mais estratégico: o atrito entre os EUA e a União Europeia pela Groenlândia tornou-se o centro de gravidade da conferência. O episódio expõe, em plena praça pública global, um movimento decisivo no tabuleiro de relações transatlânticas.
Ao amanhecer, enquanto prosseguia o destacamento de tropas europeias da NATO na grande ilha ártica, o ex-presidente Trump influiu com uma série de postagens no Truth Social que combinaram zombaria e provocação diplomática. Primeiro, uma vinheta gerada por inteligência artificial que o mostra plantando a bandeira americana no território dinamarquês ao lado do vice JD Vance e do secretário de Estado Marco Rubio. Depois, outra imagem com uma mapa exagerado que posiciona a bandeira dos EUA não apenas na Groenlândia, mas também sobre Canadá e Venezuela. Complementou com ataques verbais aos britânicos pelo caso das ilhas Chagos, cedidas às Maurícias.
De maior gravidade foi a divulgação — pelo próprio Trump — de mensagens privadas enviadas a ele por líderes europeus: o primeiro, o primeiro-ministro holandês Mark Rutte, que o elogiou pelo papel em Ucrânia e Gaza e se mostrou confiante numa solução para a Groenlândia; o segundo, o presidente francês Emmanuel Macron, que afirmou não compreender os planos de anexação e ofereceu organizar um encontro do G7 em Paris para incluir delegados russos e discutir a crise ucraniana. A circulação desses bilhetes privados revela uma diplomacia de bastidores exposta, com sinais de desgaste.
A participação do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em Davos ficou ao largo do noticiário, em suspenso; sua presença, esperada para hoje, passa a ser incerta, num reflexo do deslocamento de prioridades causado pela crise groenlandesa.
No discurso mais aguardado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, traçou paralelos históricos e advertiu: a conjuntura lembra o ‘Nixon shock’ de 1971, quando a retirada do padrão-ouro reconfigurou o sistema financeiro global. Von der Leyen defendeu a necessidade de cooperação com Washington em temas como a Ucrânia e a Groenlândia, mas sublinhou que a crise deve ser aproveitada para edificar “uma nova Europa verdadeiramente independente”. A mensagem foi clara: a soberania de Nuuk e de Copenhague não é negociável; a resposta comunitária será “unida e inflexível” diante de ameaças.
Algumas lideranças europeias tomaram um tom ainda mais firme. O primeiro‑ministro belga Bart de Wever advertiu que o confronto aproxima-se de um “ponto de ruptura” e sugeriu que se preparem para uma eventual guerra comercial. Do lado americano, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que antes adoprava um linguajar de confronto, pareceu mais cauteloso, percebendo que não se trata apenas de um jogo de último‑a‑recuo num “chicken game” diplomático.
Essa sequência de movimentos — postagens públicas, mensagens privadas vazadas, deslocamento de forças e declarações oficiais — compõe um quadro em que a arquitetura clássica da aliança transatlântica enfrenta alicerces frágeis. Para o observador estratégico, trata‑se de mais que um episódio: é um redesenho de fronteiras invisíveis, uma tectônica de poder que exigirá jogadas cuidadosamente calibradas para evitar uma escalada que comprometa a estabilidade europeia e global.
Assinado: Marco Severini, Espresso Italia — análise e geopolítica.






















