Marco Severini para Espresso Italia — No palco do World Economic Forum em Davos, Volodymyr Zelensky proferiu um discurso firme contra a postura europeia, numa intervenção que revela tensões profundas entre gratidão pública e exigência estratégica. A fala do presidente ucraniano chega após quase quatro anos de assistência financeira, militar e humanitária da União Europeia — estimada em mais de 130 bilhões de euros — e enquanto cresce o debate sobre a utilização dos ativos russos congelados, apontados como possível suporte financeiro à reconstrução da Ucrânia.
De forma direta, Zelensky acusou líderes europeus de impotência política, afirmando que a Europa permanece “dividida e perdida” ao não transformar avaliação de riscos em decisões estratégicas concretas. A crítica incide sobretudo sobre a hesitação quanto aos aproximadamente 210 bilhões de euros de ativos russos bloqueados — valor localizado em grande parte em instituições de mercado como a Euroclear, na Bélgica — e sobre a aparente ausência de um mecanismo jurídico e financeiro claro para empregá-los como garantia de empréstimos destinados a Kiev.
É fundamental, porém, distinguir retórica de realidade institucional. As preocupações manifestadas por Bruxelas e por autoridades financeiras não nascem de falta de vontade, mas de responsabilidade. A discussão envolve questões jurídicas complexas: risco de litígios internacionais, possibilidade de decisões judiciais futuras que exijam a devolução de ativos, e a solenidade dos livros contábeis de Estados-membros que poderiam ser arrastados a tribunais se uma operação dessas fosse revertida. A Banco Central Europeu questionou o papel de garantidor final do esquema, avaliando o alto risco político e jurídico de assumir tal responsabilidade.
No plano político, vozes como a do belga Bart De Wever foram citadas como prudentes — exigindo salvaguardas jurídicas antes de avançar. Essa cautela é parte da arquitetura da estabilidade financeira europeia: um movimento precipitado no tabuleiro poderia desestabilizar não apenas uma operação isolada, mas os alicerces do sistema bancário e de liquidação continental. É a lógica da tectônica de poder financeira: pressões locais podem provocar deslocamentos de grande alcance.
Além das críticas à Europa, Zelensky anunciou em Davos a intenção de uma reunião trilateral envolvendo Ucrânia, Estados Unidos e Rússia. O gesto é paradoxal e estratégico — ao mesmo tempo confrontante e sinalizador de abertura — lembrando um lance calculado em um jogo de xadrez, onde uma proposta de tabuleiro serve tanto para testar a resposta do adversário quanto para reposicionar aliados.
Do ponto de vista da geopolítica, estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis: financiamento, legitimidade jurídica e influência estratégica. O apelo de Kiev pressiona por soluções criativas — empréstimos garantidos por ativos congelados, mecanismos multilaterais de supervisão, ou fundos específicos de reconstrução —, mas qualquer mecanismo requer consenso técnico e coragem política que, até o momento, parecem faltar em escala continental.
Como analista, observo que o gesto público de Zelensky cumpre uma função dupla: mobilizar opinião e acelerar uma resposta. Contudo, transformar indignação em instrumento político exige que seus interlocutores europeus se movam de maneira coordenada e juridicamente robusta, evitando decisões que possam fragilizar o sistema financeiro. Em termos clássicos de diplomacia, trata-se de equilibrar a urgência da assistência com a durabilidade das instituições — um movimento decisivo no tabuleiro cuja execução errada pode comprometer os alicerces da própria solidariedade europeia.
Em suma, Davos expôs não apenas a ingratidão — real ou percebida — mas a lacuna entre retórica e capacidade de execução. A estabilidade futura dependerá da habilidade de traduzir críticas em instrumentos confiáveis, sustentados por uma arquitetura legal que proteja tanto a reconstrução ucraniana quanto a integridade do sistema financeiro europeu.






















