O Fórum de Davos recuperou seu lugar no calendário dos poderosos, porém como símbolo mais do que como motor decisório. A edição de 2026 reforça uma tendência: a sua capacidade de representar a agenda global está em retração concreta — a participação de cerca de oitenta países entre quase duzentos atesta um impacto geopolítico em declínio —, ainda que o espetáculo e a narrativa mediática continuem a conferir-lhe aura desproporcional.
Um símbolo ainda relevante, mas com força reduzida
Olhado de longe, o evento é narrado como um ponto de inflexão. De perto, os números e as presenças sugerem outra leitura: a alteridade das formas sem ruptura do fundo. Mais que um rompimento, assistimos a um redesenho de fachada. As linhas ideológicas mudam; os vetores do comando econômico permanecem. Em termos de poder, o tabuleiro sofreu ajustes nas peças, não uma reinvenção das regras.
Renovação de elites, continuidade do comando
O que se nota em Davos é uma substituição de atores e de retórica: menos fundações filantrópicas em evidência e uma maior presença das Big Tech e de entidades financeiras privadas; menos linguagem de inclusão e multilaterismo, e mais vocabulário nacionalista e corporativo. Ainda assim, os grandes players da finança global não desapareceram — apenas recuaram para posições menos exuberantes do ponto de vista público. A arquitetura do domínio segue apoiada em alicerces que resistem a mudanças de fachada.
Do globalismo moral ao cinismo pragmático
O movimento em curso não traduz uma vitória de um bloco sobre outro, mas uma transformação na forma de exercer hegemonia. O antigo globalismo unipolar, que se apresentava embasado em normas e valores universais, cedeu espaço a uma versão mais direta e utilitarista do mesmo controle: a reivindicação do interesse nacional de poucos, legitimada pela força e pelo cálculo. É um retorno a práticas que evocam as eras das potências, onde a moralidade pública era aliada da conveniência privada.
Trump, o mito dos patriotas e a seletividade da soberania
O Trump que falava de soberania multilateral parece uma figura de outro ciclo. A atual expressão da política norte-americana revela uma seletividade pragmática: a invocação da soberania é válida quando convém. Esse duplo padrão corrói a consistência de um discurso que, inicialmente, capitalizou um desconforto real com o antigo ordenamento global. No eleitorado que sustentou a onda que levou Trump de volta ao centro do poder, já se desenham sinais de desilusão — a promessa de restaurar a ordem foi encontrada com a realidade de interesses e alianças inalteradas.
A Europa como espectadora sem bússola
No grande tabuleiro transatlântico, a Europa parece perder-se entre fidelidades passadas e adaptações tímidas ao novo curso proveniente de Washington. Nenhuma capital se distingue por oferecer uma estratégia autônoma e coerente que defenda soberanias nacionais sem subordinações claras. A dependência persiste; muda apenas o centro de gravidade do qual a dependência depende.
A Itália e a janela perdida
Para a Itália, o recalibrar transatlântico poderia ter sido oportunidade para retomar autonomia estratégica. Na prática, falta uma classe dirigente com a visão histórica e a coragem política necessárias. O centro-esquerda permanece ancorado a um eurofederalismo exaurido; o centro-direita alterna entre alinhamento automático e retórica soberanista sem apresentar instrumentos reais de emancipação. O resultado é uma política externa de sobrevivência tática, incapaz de traduzir as mudanças estruturais do sistema em vantagem estratégica.
Conclusão: continuidade sob novo verniz
O que Davos revela em 2026 é menos a morte de uma era e mais a metamorfose de seus signos. O poder não foi substituído; foi re-vestido. Essa transformação exige leitura atenta: as peças mudaram de lugar, mas o jogo continua, às vezes com regras mais antigas mascaradas por palavras novas. No mapa da influência, as fraturas são reais — mas por enquanto ainda controladas pelos grandes gestores do capital e da tecnologia, enquanto as potências políticas reordenam alianças sob o signo do interesse imediato.
Num mundo em que as fronteiras visíveis cedem lugar a uma tectônica de poder menos aparente, a capacidade de formular estratégia — como no xadrez, antecipando movimentos do oponente e consolidando posições — será a medida da independência efetiva dos Estados e das classes dirigentes. A Itália, e a Europa em geral, estão diante do desafio de erguer alicerces diplomáticos capazes de resistir a mais um movimento decisivo no tabuleiro global.






















