Donald Trump e os demais signatários oficializaram, em Davos, a carta do novo organismo internacional concebido pelo ex-presidente norte‑americano: o Board of Peace. A iniciativa foi apresentada como um instrumento para viabilizar a transição para a chamada fase 2, acordo definido em outubro, em Sharm El‑Sheikh, destinado a encerrar o conflito na Gaza e estabelecer condições de estabilidade regional.
O ato de assinatura teve caráter protocolar e político: primeiros a rubricar o documento ao lado de Trump foram delegados do Bahrein e do Marrocos. Entre os demais signatários estavam aliados próximos do magnata e líderes com posições geopolíticas relevantes, como o presidente argentino Javier Milei e o primeiro‑ministro húngaro Viktor Orbán. Assinaram também figuras centrais do mundo árabe e muçulmano: o chefe da diplomacia turca Hakan Fidan, o primeiro‑ministro e chanceler do Qatar Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita Faisal Bin Farhan Al Saud e Khaldoon Khalifa Al Mubarak, alto funcionário dos Emirados Árabes Unidos.
Outras presenças notificadas incluem a presidente do Kosovo, Vjosa Osmani, e chefes de delegações de países tão diversos quanto a Argentina, o Paquistão e o Uzbequistão. Curiosamente, a palavra Gaza não aparece — segundo relatos da imprensa — nas oito páginas do texto final: um sinal simbólico das precauções retóricas que marcam a construção institucional deste novo fórum.
Quanto a atores centrais no terreno, o quadro é ambíguo. Israel anunciou sua adesão ao Board of Peace depois de uma reação inicial negativa, mas não participou da cerimônia de assinatura em Davos, mesmo com a presença do presidente israelense Isaac Herzog no mesmo encontro. O primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu havia criticado a composição do comitê por incluir Turquia e Qatar, expressando reservas sobre a legitimidade do grupo.
Também houve hesitações de aliados europeus: muitos membros tradicionais da Aliança e da União Europeia evitaram integrar o conselho, citando preocupações políticas sobre convites controversos estendidos por Trump, inclusive ao presidente russo Vladimir Putin e ao seu aliado bielorrusso Aleksandr Lukashenko, ausente em Davos. A Casa Branca divulgou uma lista de países com 22 signatários: Estados Unidos, Bahrein, Marrocos, Argentina, Armênia, Azerbaijão, Bélgica, Bulgária, Egito, Hungria, Indonésia, Jordânia, Cazaquistão, Kosovo, Mongólia, Paquistão, Paraguai, Qatar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Uzbequistão.
No plano das relações com Moscou, a narrativa também se move em dois tempos: a Rússia ainda não se comprometeu oficialmente com o Board, embora tenha sinalizado a intenção de descongelar cerca de 1 bilhão de dólares de ativos sob influência norte‑americana. O enviado de Trump, Steve Witkoff, já se preparava para seguir a Moscou com a promessa pública do presidente: “Com Putin, falaremos”.
Do ponto de vista geoestratégico, o evento em Davos é um movimento tactico de longo alcance — um lance no tabuleiro onde se procura desenhar novas linhas de influência sem romper os antigos alicerces da diplomacia multilateral. A ambição declarada de transformar o Board of Peace em “uma das organizações internacionais mais importantes do mundo” colide, porém, com a realidade de adesões fragmentadas e com a resistência de atores tradicionais. Resta ver se o organismo será capaz de traduzir assinatura em autoridade prática e em políticas que realmente alterem a tectônica de poder no Oriente Médio.






















