Por Marco Severini — Em um desdobrar que altera o tabuleiro da cultura pop e projeta ondas de choque sobre as estruturas institucionais, o artista conhecido como D4vd — nome civil David Burke — foi formalmente colocado no centro de uma investigação por homicídio conduzida por um Gran Jurí da Condado de Los Angeles.
O caso envolve a morte de Celeste Rivas Hernandez, uma jovem cuja trajetória culminou tragicamente com o achado de partes de seu corpo no interior de uma Tesla Model Y 2023. O veículo, removido em 8 de setembro nas Hollywood Hills e levado a um depósito judicial, revelou aos investigadores uma cena de extrema violência: no compartimento dianteiro (o chamado “frunk”) foi localizado um saco de cadáveres com um torso e a cabeça em avançado estado de decomposição, enquanto, sob este, havia um segundo saco contendo os membros desmembrados da vítima.
As autoridades traçaram a origem da vítima a Lake Elsinore, onde Celeste desapareceu aos 13 anos. Os restos foram descobertos praticamente na data que seguiria seu quinquagésimo aniversário? (nota: comemoração de 15 anos), ou seja, um dia após o que teria sido seu décimo quinto aniversário, acrescentando uma dimensão quase ritual à cronologia dos fatos.
Apesar de a investigação na Califórnia ter sido mantida em sigilo, informações cruciais emergiram por meio de um recurso judicial apresentado no Texas pelos próprios familiares do cantor. Os pais e o irmão de Burke receberam mandados de intimação em 15 de janeiro para depor perante o Gran Jurí, mas, segundo registros, recusaram-se a cooperar. Nos documentos analisados pela agência AP, a promotoria identifica explicitamente David Burke como o “alvo” principal do inquérito.
No plano profissional, o episódio interrompeu bruscamente a ascensão meteórica do jovem astro do alt-pop. Ironia pungente: Burke alcançou projeção internacional em 2022 com o hit viral no TikTok “Romantic Homicide”. Após o descobrimento dos restos, o artista manteve inicialmente apresentações do seu tour pelos EUA, mas cancelou subitamente as datas restantes no país e adiou o previsto tour europeu quando seu nome foi vinculado publicamente ao caso.
Até o momento, os representantes de D4vd e o gabinete do promotor distrital não emitiram declarações oficiais; o laudo final do médico legista encontra-se sob sigilo. A natureza exata da relação entre a vítima e o artista não foi esclarecida pelas investigações públicas, mas a possibilidade de uma acusação formal por homicídio coloca em risco não apenas a carreira de Burke junto às gravadoras Darkroom e Interscope, como também o frágil equilíbrio reputacional de um setor que frequentemente se apoia em narrativas e identidades cuidadosamente arquitetadas.
Como analista, vejo neste episódio um movimento decisivo no tabuleiro: seja qual for o desfecho judicial, haverá um redesenho de fronteiras invisíveis — entre fama e impunidade, entre culto ao ídolo e responsabilidade legal. As instituições chamadas a responder devem edificar decisões sobre alicerces firmes, evitando que a tectônica de poder e a pressão midiática deformem a busca pela verdade.
Seguiremos acompanhando o caso com atenção às peças processuais que poderão ser desveladas, atento à cronologia dos fatos e ao impacto estratégico desta investigação sobre a geografia cultural e jurídica que sustenta a indústria musical contemporânea.

















