Por Marco Severini — Em um movimento que desenha-se como um lance estratégico no grande tabuleiro geopolítico, Cuba volta a ocupar o epicentro das atenções dos EUA. Após a chamada deposição de Maduro na Venezuela, sinais claros indicam que a ilha caribenha passa a figurar entre os objetivos prioritários da administração de Donald Trump, com uma operação que, segundo informações, foi delineada em abril.
Não se trata de especulação retórica, mas de uma leitura fria dos deslocamentos de influência: o enfraquecimento do corredor energético entre Caracas e Havana — resultante da reavaliação do novo governo venezuelano sobre as concessões de petróleo — expõe Cuba a uma crise estrutural que catalisa tanto pressões internas quanto externas. Em poucas semanas, relatos de apagões e colapsos de infraestrutura tornaram-se frequentes em Havana e em outras províncias, confirmando uma recessão que já aparece nos números: retração adicional da economia registrada em 2024.
Paralelamente, observa-se uma corrida diplomática e logística. Pequenos, porém simbólicos, gestos de apoio de atores extra-regionais — como o envio emergencial anunciado pela República Popular da China (toneladas de arroz e recursos destinados a geradores) — indicam o cuidado de Pequim em manter aberturas num ponto sensível da sua política externa no Caribe. Ainda assim, esses auxílios não resolvem os alicerces frágeis da diplomacia e da economia cubanas.
Há um elemento adicional que converte a deterioração interna em oportunidade externa: a narrativa política. O discurso norte-americano no período recente tem sido de ampliação de pressões sobre regimes considerados hostis à ordem liberal. A deposição de Maduro funcionou, para determinadas faixas do establishment em Washington, como um gatilho para reposicionar prioridades estratégicas. Nesse contexto, Cuba reaparece no radar como um objetivo de influência e, potencialmente, de intervenção política mais intensa.
Como analista com anos de observação transatlântica e contatos em Miami e na própria ilha, enxergo esse movimento como um xeque no tabuleiro: uma série de jogadas calculadas para acelerar a erosão do regime vigente em Havana, explorando tanto a crise energética quanto o descontentamento social. A história cubana desde 1959 é, em muitos aspectos, a história de um projeto que trocou pluralidade cultural e iniciativa privada por tutela estatal rígida — uma troca que, nestes momentos, torna a ilha vulnerável a choques externos.
Diplomaticamente, o desafio é complexo. A arquitetura regional sofreu rearranjos significativos nos últimos anos — um redesenho de fronteiras invisíveis entre aliados e oponentes. Qualquer tentativa de intervenção deve ponderar custos e repercussões: reação russa, resposta chinesa, repercussões humanitárias e a reação dos próprios cubanos, que conhecem bem os jogos do poder e a história das promessas externas.
Em suma, não creio em cenários maniqueístas. A possibilidade de que os EUA coloquem Cuba num plano mais agressivo de políticas externas é real e já foi operacionalmente esboçada. Mas a execução de uma operação de grande alcance envolve riscos tectônicos de ordem estratégica. O que se desenha, por ora, é um aumento de pressão diplomática, econômica e informacional — movimentos típicos de uma partida em que se busca isolar e fazer colapsar as defesas do adversário antes de um movimento final.
Para leitores e decisores que acompanham a estabilidade regional, a lição é clara: devemos observar com atenção os próximos meses. O jogo está em curso, e cada peça movimentada em Caracas, Havana ou nos bastidores de Washington altera o mapa de influências no Hemisfério. Meu conselho, como analista, é acompanhar sinais tangíveis — cortes de fornecimento energético, medidas punitivas econômicas, mobilizações diplomáticas em fóruns multilaterais — pois esses são os indícios que, no final, definem o desfecho.
Marco Severini, Espresso Italia — análise geopolítica e estratégia internacional.






















