Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência no cenário do Oriente Médio, o presidente Donald Trump declarou — pela primeira vez em público sobre a ofensiva de 28 de fevereiro — que o Irã teria atingido Estados considerados neutros, implicando uma escalada que agora arrasta múltiplos Estados do golfo para o confronto. As palavras de Trump, proferidas na Casa Branca durante encontro com o chanceler alemão Friedrich Merz, refletem uma leitura geopolítica de tabuleiro: um movimento que rompeu alicerces frágeis da diplomacia regional e provocou respostas coordenadas, explícitas e implícitas.
Segundo o presidente norte-americano, o que começou como uma ação direcionada acabou por atingir nações que não integravam o conflito: “O Irã está acabando com os mísseis, atingiu países neutros e isso foi uma surpresa. E agora todos esses países estão combatendo duramente contra o Irã“. Na narrativa de Trump, não se trata apenas de uma ação bilateral entre EUA e Israel, mas de uma coalizão de circunstância — ainda que não formalizada — que enfrenta Teerã.
Oficialmente, nenhuma capital declarou a formação de uma aliança militar pública. Ainda assim, o diálogo entre aliados é contínuo. Fontes citadas pela Axios, sob condição de anonimato, afirmam que os Emirados Árabes Unidos estão avaliando a adoção de medidas ativas para deter lançamentos de mísseis e drones originados do Irã. Uma fonte próxima às discussões nos Emirados chegou a afirmar que o país sofreu o lançamento de “800 misséis” — dado que circula no ambiente político e que contrasta com os números oficiais divulgados por Abu Dhabi.
O conselheiro de política externa dos Emirados, Anwar Gargash, publicou no X que os ataques do Irã contra os Estados do Golfo foram um “erro de cálculo” que isola Teerã num momento crítico, reforçando a narrativa de que o país é a principal fonte de instabilidade na região e que seu programa balístico é uma ameaça permanente.
O Ministério da Defesa de Abu Dhabi detalhou que o Irã lançou 186 mísseis balísticos contra os Emirados Árabes Unidos: 172 interceptados, 13 no mar e 1 que aterrissou em território nacional. Paralelamente, foram detectados 812 drones, dos quais 755 interceptados e 57 com impacto em solo. As autoridades afirmam que três cidadãos estrangeiros foram mortos e cerca de 70 pessoas ficaram feridas.
A declaração oficial dos Emirados ressalta o direito de responder a esta escalada e de adotar todas as medidas necessárias para proteger sua soberania. Enquanto isso, relatórios da mídia israelense e diplomática indicam movimentações e preparativos também no Qatar e na Arábia Saudita, e menções ao papel do Omã como mediador acentuam a complexidade dos canais de negociações.
Do ponto de vista estratégico, a atual sequência de ações mostra uma tectônica de poder em que ataques de precisão e o uso massivo de drones reconfiguram o alcance e a vulnerabilidade das bases e corredores logísticos no Golfo Pérsico. A região experimenta agora uma fase em que as fronteiras tradicionais são contornadas por uma nova cartografia de ameaças: interceptores sobrepostos, corredores aéreos monitorados e respostas políticas que oscilam entre retaliação e contenção.
Em suma, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: Teerã ampliou seu repertório operacional, e as capitais do Golfo, que antes buscavam posturas defensivas discretas, agora discutem medidas ativas. A estabilização do teatro dependerá da capacidade dos atores em transformar reações imediatas em uma arquitetura de segurança que evite a escalada irreversível.





















