Por Marco Severini — Em um movimento que procura redesenhar um novo cenário diplomático no Caribe, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, reiterou a disposição de seu país para funcionar como terreno neutro e facilitador de um eventual diálogo entre Estados Unidos e Cuba. “A porta diplomática está aberta”, afirmou a mandatária, sublinhando, porém, que a iniciativa depende de uma vontade política equivalente tanto em Washington quanto em La Habana. A oferta de México é parte de um movimento calculado para ganhar protagonismo regional sem romper com a realidade dos alicerces frágeis da diplomacia hemisférica.
O anúncio chega em meio a uma crise multifacetada para Cuba. Desde a operação militar de 3 de janeiro em Caracas — que teve repercussões regionais e levou a uma mudança abrupta nas rotas de abastecimento — os Estados Unidos interromperam remessas de petróleo venezuelano destinadas à ilha e ameaçaram aplicar tarifas a países que continuem a fornecer combustível a La Habana. Entre as consequências práticas, vários voos foram suspensos por falta de combustível para reabastecimento.
Internamente, o governo cubano adotou cortes e adaptações com caráter de emergência: redução do transporte público, alteração de horários de trabalho no setor público, promoção de aulas universitárias remotas e manutenção de longos episódios de apagões. Postos de combustível operam de forma parcial, com filas crescentes que são a face visível de um problema logístico e humanitário.
No tabuleiro internacional, aliados tradicionais da ilha aceleraram sua resposta. O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Ryabkov, declarou que Moscou, juntamente com parceiros dos BRICS e com a China, está “fazendo tudo o possível” para apoiar Cuba, inclusive com assistência financeira. Ryabkov qualificou a atuação norte-americana como expressão de uma versão atualizada da Doutrina Monroe e advertiu para possíveis violações do direito internacional.
Paralelamente, o Chile, por orientação do presidente em fim de mandato Gabriel Boric, anunciou um contributo ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para apoiar a resposta àquilo que descreveu como uma “catástrofe humanitária” em Cuba. O aporte será canalizado pelo Fundo Chileno contra a Fome e a Pobreza, administrado pela Agência Chilena de Cooperação Internacional ao Desenvolvimento (AGCID).
Em Genebra e Nova York, funcionários da ONU sinalizam preocupação com o impacto da crise sobre os direitos humanos na ilha: acesso a serviços de saúde, fornecimento de energia, mobilidade e garantia de alimentação estão entre as prioridades destacadas pelas agências humanitárias. O cenário é interpretado por observadores como uma combinação de choque logístico e pressão geopolítica, com consequências diretas sobre a população civil.
Do ponto de vista estratégico, o movimento conjunto de México, Rússia, China e Chile configura um redesenho de fronteiras invisíveis na influência sobre a ilha: enquanto Sheinbaum tenta posicionar o México como mediador neutro, Moscou e Pequim consolidam apoio material e político, e Santiago prioriza o alívio humanitário. É uma jogada que revela uma tectônica de poder mais ampla, onde cada peça no tabuleiro busca reduzir riscos e projetar influência.
O desfecho depende, em última instância, da conjugação entre políticas públicas e diplomacia de alto nível. Se a oferta mexicana encontrar eco em Washington e La Habana, poderá abrir canais — ainda que frágeis — de comunicação. Caso contrário, a probabilidade é que a crise se prolongue, ampliando o custo humano e aprofundando a disputa entre potências por instrumentos de influência no hemisfério.
Em resumo: Cuba atravessa um momento crítico, no qual decisões tomadas em capitais distantes moldam diretamente o cotidiano da população. A leitura fria do tabuleiro exige atenção às próximas movimentações dos atores internacionais e à capacidade das instituições multilaterais em mitigar os efeitos sobre os direitos fundamentais.






















