Em declaração firme e calculada, o porta-voz do Cremlino, Peskov, confirmou que existem contatos técnicos restabelecidos entre França e Rússia, referindo-se às palavras do presidente Macron. Segundo Peskov, essa linha direta “ajudará a estabelecer rapidamente um diálogo ao mais alto nível” sobre a situação na Ucrânia.
O discurso do Kremlin, proferido com a disciplina de um movimento de abertura num tabuleiro de xadrez, sublinha que, por ora, Paris permanece o único interlocutor europeu a adotar formalmente essa iniciativa. “A parte Parigi (Paris), nessas condições, é a única que propôs e recebeu respostas”, afirmou Peskov aos jornalistas, acrescentando que “para quanto às outras capitais europeias, por enquanto, não houve ações similares”.
Sobre o calendário de novas conversas, Peskov foi cauteloso: não existe ainda uma data definida para um próximo round de negociações relativo à Ucrânia, mas há expectativa de que os contatos ocorram em breve. “Não há datas específicas ainda, mas esperamos que aconteça logo”, disse o porta-voz, evitando compromissos temporais e preservando margem estratégica.
Na leitura analítica que proponho, como Marco Severini, é necessário ver esse movimento não como um fim, mas como uma jogada tática num cenário mais amplo de tectônica de poder. A restauração de um canal técnico entre Paris e Moscou funciona como um corredor diplomático que pode servir tanto para calibrar desescaladas locais quanto para aferir intenções estratégicas adversárias. Em termos de arquitetura das relações internacionais, trata-se de reforçar alicerces frágeis da diplomacia que, quando bem trabalhados, permitem evitar choques mais amplos no tabuleiro europeu.
Importante ressaltar: as declarações oficiais não confirmam, e tampouco pretendem, a retomada de negociações formais de paz ou acordos imediatos. Trata-se de uma abertura técnica — um mecanismo de comunicação — cujo valor reside em reduzir ruídos e criar espaço para conversas que, se prosperarem, poderão evoluir para contatos políticos de maior vulto.
Do ponto de vista estratégico, Paris assumiu uma posição singular na atual fase de realinhamento. Mas a singularidade de um canal não elimina a necessidade de múltiplos pontos de contato: diplomacia resiliente e de longo prazo exige redes redundantes, capazes de operar quando um eixo sofre perturbações. A esperança do Kremlin de que “aconteça logo” traduz, antes de tudo, a busca por estabilidade operacional e previsibilidade no fluxo de informações.
Seguiremos atento aos próximos movimentos: um eventual calendário de negociações e a reação das demais capitais europeias serão determinantes para saber se esta é uma jogada isolada ou o início de um redesenho mais amplo das linhas de comunicação entre Europa e Rússia.






















