Por Marco Severini — Em movimento diplomático de significativa carga simbólica e estratégica, o governo italiano determinou o retorno a Roma do embaixador na Suíça, embaixador Cornado, para consultas e definição de medidas subsequentes. A decisão, anunciada por Palazzo Chigi, foi tomada à luz da controversa decisão do Tribunal das Medidas Coercitivas de Sion que autorizou a libertação, mediante caução, de Jacques Moretti, gestor do estabelecimento em Crans-Montana ligado à tragédia conhecida como Constellation.
O gabinete de governo, nas vozes do presidente do Conselho, Giorgia Meloni, e do ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, transmitiu “a viva indignação do governo e de toda a Itália” por uma medida que, segundo eles, foi adotada “apesar da extrema gravidade do crime de que ele é suspeito, das sérias responsabilidades que pesam sobre ele, do persistente risco de fuga e do evidente perigo de contaminação de provas”. Em nota oficial, Palazzo Chigi qualificou a decisão como “uma grave ofensa e mais uma ferida infligida às famílias das vítimas da tragédia de Crans-Montana e àquelas que permanecem hospitalizadas”.
O episódio reacende dúvidas sobre o desenho institucional e a coordenação entre jurisdições: se no tabuleiro diplomático se joga uma resposta política firme, nas peças judiciais a libertação mediante caução — reportada como 200 mil francos suíços por um dos familiares e 400 mil euros no comunicado sobre o casal Moretti — produz forte repúdio entre as famílias das vítimas. Em entrevista ao jornal Repubblica, Andrea Costanzo, pai de Chiara, uma das jovens italianas mortas, resumiu o sentimento comum: “A única coisa que me mantém vivo é saber que um dia será feita justiça. Mas estas notícias parecem mover-se na direção contrária. Tudo me parece tão injusto… Uma caução de 200 mil francos para sair da prisão, por um crime desse calibre…”.
Costanzo descreveu o efeito da decisão como “jogar sal em uma ferida que não cicatriza”, declarando-se “atônito, estupefato, aniquilado, indignado”. Ele questionou também a extensão das investigações: “E quem realizou os controles? O prefeito de Crans-Montana ou os responsáveis pela segurança municipal? Houve omissões graves. Já se passaram três semanas e estas pessoas estão levando a vida de sempre. Na minha opinião há falhas escandalosas”.
O ministro Tajani, em entrevista à SkyTg24, afirmou que a libertação de Jacques e a libertação provisória de sua esposa, Jessica, mediante pagamento de caução, “ofendem os sentimentos dos italianos”. Exigiu que a magistratura “acelere os tempos do processo penal”, lembrando que os atrasos já registrados nas investigações foram “absurdos”. Tajani acrescentou que o governo espera saber “quem pagou a caução” — referência a um amigo misterioso que teria intervido em favor do casal — e se existem eventuais cumplicidades ao redor dos acontecimentos.
Politicamente, o retorno do diplomata a Roma é um movimento cuidadosamente calibrado: atua como sinal de protesto e instrumento para reavaliar ações multilaterais, sem romper canais de diálogo com Berna. No tabuleiro da diplomacia, é um ajuste de posições para proteger interesses nacionais e custodiar as expectativas das famílias — alicerces frágeis da legitimidade pública. A tectônica de poder entre justiça suíça e pressões políticas italianas promete desenhar um novo mapa de responsabilidades e uma exigência clara por transparência.
Enquanto o caso se desenrola, permanece a exigência pública de respostas precisas sobre os fatos, a cadeia de responsabilidades administrativas e os responsáveis por eventuais omissões. A Itália pede verdade e justiça; a palavra final caberá aos procedimentos judiciais, mas o tempo processual e a percepção pública já atuam como peças decisivas neste xadrez que reúne diplomacia, lei e memória das vítimas.






















