Crans‑Montana — A tragédia ocorrida na madrugada de Ano‑Novo no lounge‑bar Le Costellations, em Crans‑Montana, revela agora, sob o crivo da investigação suíça, uma conjunção de fragilidades estruturais e falhas procedimentais que podem ter transformado um princípio de incêndio numa catástrofe. A Procuradoria do Cantão do Valais abriu inquérito por incêndio, homicídio e lesões culposas após a morte de 40 pessoas e 119 feridos.
Segundo as primeiras apurações da Procuradora‑Geral Beatrice Pilloud, o fogo teve origem em fogos de artifício de pequeno porte — as chamadas velas scintillanti — colocadas sobre gargalos de garrafas de champanhe e aproximadas perigosamente do teto. A proximidade com o revestimento do forro do semissótão teria gerado um flashover, fenômeno no qual a combustão se generaliza de forma súbita e explosiva, acelerando a propagação das chamas.
Os investigadores estão a examinar com rigor o que, na terminologia jurídica e de segurança, constitui o terreno do desastre: os materiais de acabamento e as rotas de fuga. Do teto do seminterrato emergem relatórios que descrevem painéis acústicos em poliuretano altamente inflamável. Paralelamente, chama a atenção a existência de apenas uma via de escape operacional — uma escada com largura aproximada de 1 metro — condição que, em termos de evacuação, reduz drasticamente a capacidade de fluxo e aumenta o risco de congestionamento e pânico.
As linhas de investigação incluem: obras e modificações realizadas no espaço, manutenção dos equipamentos, conformidade das medidas de segurança, sinalização e número de pessoas presentes em comparação com a capacidade máxima autorizada. A arquitetura das rotas de saída e a existência de alternativas emergenciais serão avaliadas como possíveis fatores agravantes.
Os proprietários do estabelecimento, Jacques e Jessica Moretti — que exploram igualmente os locais ‘Le Senso’ em Crans‑Montana e ‘Le Vieux‑Chalet’ em Lens — declararam que o negócio passou por “três controlos em 10 anos” e que tudo estaria em conformidade com os padrões vigentes. Essa afirmação passa agora pelo escrutínio das autoridades técnicas e judiciais.
No plano internacional, a investigação também mobiliza consulados e serviços de assistência: das vítimas, figuram cidadãos italianos, com um quadro provisório de seis desaparecidos e 13 feridos, dos quais três internados no Niguarda e outros dez hospitalizados em diferentes unidades. O ministro italiano ressaltou que “algo não funcionou” e informou sobre dezenas de interrogatórios já realizados.
Do ponto de vista técnico e estratégico, trata‑se de analisar dois movimentos no tabuleiro: o fator de innesco — as velas sobre garrafas — e os alicerces frágeis da prevenção — materiais combustíveis e vias de fuga insuficientes — que, combinados, permitem a transição rápida de um incidente para um evento de massa. A investigação helvética deverá reconstruir cronologia, responsabilidades e a conformidade normativa das operações do local.
Enquanto as equipes periciais trabalham no local, o debate público e jurídico se desloca para normas de segurança de casas noturnas e espaços de lazer, para a aplicação efetiva das inspeções e para a avaliação da responsabilidade criminal dos exploradores do espaço. Em termos de política de prevenção, a tragédia impõe um redesenho de fronteiras invisíveis entre entretenimento e segurança coletiva.




























