Por Marco Severini — Em um depoimento sóbrio e carregado de implicações institucionais, Ken Jacquemoud, ex-responsável pela segurança do município de Crans-Montana, justificou em Sion a ausência de inspeções antincêndio no clube Constellation, onde 41 pessoas morreram no incêndio de Ano-Novo. Jacquemoud atribuiu as lacunas a problemas de quadro de pessoal e a dificuldades com o software de gestão dos controles, cuja substituição levou tempo considerável — fatos dos quais, afirmou, o município fora previamente informado.
O depoimento, ocorrido nesta manhã, teve caráter técnico e processual: além da vice-procuradora-geral Catherine Seppey e de outras representantes do Ministério Público, estavam presentes os advogados das cerca de 150 partes civis constituídas. Para evitar a imprensa, Jacquemoud entrou pela porta secundária do tribunal. Também compareceu Jacques Moretti, proprietário do Constellation, que hoje figura entre os investigados juntamente com sua esposa, Jessica Maric.
Jacquemoud presidiu a pasta de segurança entre 2017 e 2024 e é investigado no âmbito do inquérito que apura as responsabilidades pelo trágico incêndio. Sua última inspeção ao estabelecimento datava de 2019. No centro do interrogatório esteve, em particular, a razão pela qual os controles de segurança se tornaram escassos nos anos posteriores e como um elemento tão inflamável — a chamada esponja acústica que se incendiou em segundos — foi declarado conforme.
Do ponto de vista técnico, revelou-se um nó entre capacidade humana e instrumentos de gestão: equipes reduzidas para fiscalizações de locais públicos e um sistema informático cujo desajuste retardou fiscalizações e registos. Jacquemoud destacou ainda que possuía um brevetto em prevenção de incêndios, informação relevante porque seu sucessor, Christophe Balet, aparentemente não detém a mesma qualificação técnica. Essa diferença no capital técnico interno desenha, no tabuleiro das instituições locais, movimentos que podem alterar responsabilidades e avaliações posteriores do caso.
As questões levantadas não são apenas administrativas. Em termos estratégicos — e usando a metáfora do jogo — trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro das responsabilidades: quando as peças do aparelho municipal se mostram escassas ou desalinhadas, as brechas tornam-se perigosas. A tragédia no Constellation expõe alicerces frágeis da governança local e coloca em evidência o risco de materiais avaliados como conformes em inspeções esparsas serem, na prática, incompatíveis com normas de segurança efetiva.
O depoimento de hoje em Sion serviu tanto para esclarecer o passado recente — a frequência e a qualidade das inspeções entre 2019 e 2024 — quanto para mapear responsabilidades futuras no inquérito. Para além dos elementos judiciais, abre-se um debate pragmático sobre a tectônica de poder entre entidades técnicas e órgãos políticos municipais: quem decide prioridades de alocação de pessoal e recursos, e em que medida essas decisões podem ser consideradas negligência?
Em termos práticos, o processo deverá agora confrontar provas técnicas, relatórios de inspeção e cronologias de comunicação entre Jacquemoud e o município. A leitura estratégica aponta para duas linhas de investigação que seguirão no tribunal: a avaliação técnica das medidas de segurança adotadas no Constellation e a análise das decisões administrativas que limitaram a capacidade de fiscalização do sistema local.
O desenrolar desse inquérito terá implicações para a regulação dos espaços públicos noturnos, para os padrões de certificação de materiais e para a organização institucional dos serviços técnicos. Em um momento em que a estabilidade das relações de poder se mede também pela eficiência administrativa, este caso projeta um desenho de fronteiras invisíveis entre responsabilidade técnica e decisão política — e lembrará a todos que, no tabuleiro da segurança pública, a negligência de um lance pode custar vidas.






















