Por Marco Severini — Em um depoimento que altera peças no tabuleiro já delicado deste caso, a empregada do bar Le Constellation, Louise Leguistin, declarou aos investigadores que foi obrigada a se vestir para um espetáculo e que, durante o avanço das chamas, a proprietária Jessica Moretti estava a filmar os acontecimentos com o celular. A versão de Leguistin contrasta com a narrativa apresentada pela gestora do local sobre a noite em que o incêndio consumiu o estabelecimento em Crans-Montana, na virada de Ano-Novo.
Segundo os registros comerciais do Cantão de Valais, o marido de Jessica, Jacques Moretti, não figurava mais como diretor oficial do Le Constellation desde 7 de fevereiro de 2024; constava apenas como sócio, enquanto Jessica aparecia como única responsável no momento da tragédia. Essa mudança burocrática é um dado que reconfigura a responsabilidade administrativa e torna mais nítidas as fronteiras da cadeia de comando.
Leguistin descreveu aos promotores e à imprensa suíça o horror vivido após o início do fogo: “Havia queimados por toda parte, o odor era insuportável. No interior havia espelhos por todos os lados e as pessoas viam seus próprios reflexos. Durmo mal; vejo continuamente os rostos dos mortos”. Ela é, até o momento, a única funcionária do local que não sofreu ferimentos físicos na tragédia.
Outro elemento que retorna à investigação é um vídeo promocional do bar, removido do site após a tragédia. No material aparecem clientes com charutos e garrafas acompanhadas de pequenas fontes pirotécnicas — imagens que, agora, podem ganhar valor probatório diante das hipóteses sobre origem do foco incandescente.
Entre as vítimas está a jovem garçonete Cyane Panine, apelidada pela imprensa de “a garota com o capacete”. Relatos indicam que Panine, com 24 anos, era por vezes erguida nos ombros de um colega enquanto servia garrafas com velas pirotécnicas acesas. Essas chamas próximas à espuma fonoabsorvente do teto são apontadas como possível causa do incêndio. Os proprietários, por meio de seus depoimentos, tentaram imputar a responsabilidade a Panine, alegando que subir nos ombros não era um procedimento seguro naquele ponto do salão.
Do ponto de vista analítico, este episódio contém vários estratos que se sobrepõem: a cadeia formal de gestão alterada em registros oficiais, práticas de espetáculo que mesclavam consumo e pirotecnia em ambiente fechado, material promocional apagado do domínio público e relatos divergentes de quem estava no interior do estabelecimento. Como num confronto de peças sobre o tabuleiro, cada nova declaração redesenha as linhas de responsabilidade e complica a necessária definição de culpabilidade.
Enquanto o processo avança, é imperativo que os investigadores confrontem a cronologia digital — incluindo vídeos e registros de telefonia — com depoimentos e laudos técnicos sobre a inflamabilidade dos materiais de forro acústico. A estabilidade das conclusões dependerá de desmontar a cena em camadas tão precisas quanto uma planta arquitetônica: identificar fontes, trajetórias do fogo e atos que possam ter transformado um evento controlável em catástrofe.
Não se trata apenas de apontar um responsável isolado, mas de entender os alicerces frágeis da convivência pública em espaços de espetáculo. Nesta fase, a verdade processual é um movimento de xadrez lento e calculado — e cada depoimento, cada imagem recuperada, é uma peça que pode decidir o próximo lance da justiça.





















