Crans-Montana foi alertada sobre disfunções nos serviços públicos ligados à segurança antes do incêndio no estabelecimento Constellation. Um relatório interno, datado de 31 de agosto de 2023, identifica problemas organizacionais e lacunas nos procedimentos de verificação, em particular no serviço responsável pelos controles antincêndio de espaços públicos e comerciais.
O documento, intitulado “Sintese di un audit sommario sul modo di funzionamento del Comune di Crans-Montana in termini di management, organizzazione e comunicazione”, aponta para falhas na gestão de pessoal — com “casos disciplinares não geridos ou ignorados” — e um processo de recrutamento que, segundo o relatório, não se apoiaria prioritariamente nas competências técnicas, mas em relações pessoais e políticas. Entre as recomendações gerais, o audit sugeria apoiar os chefes de serviço na gestão de recursos humanos e reforçar os mecanismos de comunicação interna.
À época do relatório, o prefeito Nicolas Féraud e a vice-prefeita Nicole Clivaz já ocupavam seus cargos. Fontes indicam que o documento permanece de circulação extremamente restrita: não consta nos autos do Ministério Público do cantão do Valais, não foi apreendido e apenas os sete membros do Executivo municipal e os chefes de serviço teriam conhecimento do seu conteúdo e anexos. Até o momento, advogados das vítimas não tiveram acesso ao relatório.
O caso ganha outra faceta com o depoimento do fornecedor de mobiliário do Constellation, Robert Borbiro. Ele afirma ter oferecido aos proprietários — o casal Moretti — a instalação de uma proteção em espuma ignífuga, proposta recusada por alegado custo excessivo. A recusa, segundo Borbiro, decorreu de uma avaliação orçamentária que privilegiou alternativas supostamente ignífugas adquiridas em outro fornecedor.
No inquérito, surgem ainda relatos sobre a ausência de exercícios de evacuação: a esposa de Jacques Moretti, Jessica Maric, declarou que nunca houve pedidos formais para a realização de provas de evacuação, e que essa verificação não foi exigida. Maric, que disse ainda não ter definido o futuro do local, cogita a possibilidade de transformar o espaço em um memorial em homenagem às vítimas.
Em termos de Estado e administração local, o documento de 2023 descreve uma administração com alicerces frágeis na gestão do corpo técnico: problemas disciplinares não sancionados, recusas de atribuição de tarefas por parte de colaboradores e fragilidade nos processos seletivos. Essas são peças de um quadro onde a prevenção e os controles de risco pareceram operar fora de um tabuleiro coordenado, sem a arquitetura institucional necessária para mitigar perigos conhecidos.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro institucional: saber que existiam alertas formais antes da tragédia altera a cartografia da responsabilidade e torna mais premente o escrutínio público e judiciário. A retenção do relatório pelas autoridades municipais, e a ausência de sua inclusão nos autos do Ministério Público, levantam questões sobre transparência, diligência e sobre os mecanismos formais de verificação que deveriam proteger a população.
Enquanto a investigação oficial prossegue, a tensão entre gestão local, fornecedores e proprietários do estabelecimento desenha uma tectônica de poder onde decisões orçamentárias, lacunas administrativas e prioridades políticas se cruzam com a segurança pública. O episódio exige não apenas apurações pontuais, mas um redesenho das rotas de responsabilidade e dos mecanismos de controle que garantam que avisos no tabuleiro não se transformem em tragédias evitáveis.






















