Relatório do CPJ aponta abusos sistemáticos contra jornalistas palestinos detidos
Por Marco Severini – Espresso Italia
Um novo relatório do Committee to Protect Journalists (CPJ), publicado em 19 de fevereiro, descreve um quadro severo de violações nas prisões israelenses contra jornalistas palestinos. Baseado em entrevistas com 59 profissionais da imprensa, o documento conclui que quase todos os entrevistados sofreram formas de violência durante a detenção, indicando um padrão que excede episódios isolados.
Segundo o CPJ, apenas um dos 59 entrevistados afirmou não ter sido submetido a maus-tratos. Os depoimentos recolhidos relatam espancamentos reiterados, suspensão em posições dolorosas, exposição prolongada a ruído ensurdecedor como música em volume alto, latidos de cães e efeitos sonoros de bombardeios, além de condições higiênicas precárias. Entre as práticas descritas, 11 detentos relataram a técnica conhecida como ghost hanging, que consiste em suspender o preso pelo teto com os braços amarrados atrás das costas.
Os relatos incluem também denúncias de violência sexual, estupro e negação de atendimento médico, facto que se soma à redução extrema do peso médio dos detidos, com perda estimada em 23,5 quilos por prisioneiro. Estes elementos, somados ao número de jornalistas mortos no contexto do conflito — cerca de 220 desde 7 de outubro de 2023 até o momento do relatório — pintam um quadro de profunda erosão dos regulamentos mínimos de proteção a profissionais de imprensa.
Paralelamente, organizações de direitos humanos como a B’Tselem publicaram o relatório ‘Living Hell’, no qual se concentra uma acusação semelhante de tortura sistemática, fome e recusa de cuidados médicos nas cadeias israelenses, apontando 84 mortes de palestinos em contextos prisionais desde 2023, incluindo um menor.
Vídeos e investigações locais também alimentam a narrativa de sistematicidade. Uma reportagem da emissora Channel 13, por exemplo, documenta operações noturnas em Rakevet, com presos algemados de bruços, cães de ataque soltos contra detentos e revistas agressivas em instalações subterrâneas. Em outras cadeias, como Ketziot, são relatadas práticas de negação de água potável por períodos de até 12 horas, o que organizações humanitárias classificam como política punitiva coletiva.
Jodie Ginsberg, diretora do CPJ, interpreta a consistência dos relatos como indicativa de algo próximo a um padrão institucionalizado, não meros incidentes pontuais. Do ponto de vista geopolítico e jurídico, estes elementos exigem investigações independentes e imparciais, com acesso irrestrito às instalações, algo raramente concedido em situações de conflito quando o tabuleiro estratégico se fecha.
Como analista, observo que o caso não é apenas humanitário, é também estratégico. A detenção e o tratamento de jornalistas modelam percepções internacionais e redesenham fronteiras invisíveis da influência; um Estado que permite ou tolera abusos contra quem documenta os factos arrisca fragilizar seus próprios alicerces diplomáticos. A tensão entre segurança interna e a salvaguarda das normas internacionais cria uma tectônica de poder que continuará a repercutir nas arenas diplomáticas, jurídicas e mediáticas.
O apelo das organizações de defesa da liberdade de imprensa é claro: responsabilização, transparência e fim das práticas que configuram tortura e tratamento degradante. Sem estas medidas, o custo político e moral seguirá aumentando, enquanto o tabuleiro da região se altera, movimento a movimento.















