Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha um dos tabuleiros políticos mais sensíveis da Ásia, os procuradores sul‑coreanos solicitaram a **pena de morte** para o ex‑presidente Yoon Suk Yeol, acusado de ter declarado a **lei marcial** e liderado uma **insurreição** contra as instituições democráticas do país. A informação foi divulgada pela agência Yonhap e resume‑se a um momento decisivo na tectônica de poder da península.
Segundo a acusação, apresentada na audiência final do processo por insurreição realizada na Corte Distrital Central de Seul, Yoon teria atuado como “capofila da insurreição” com o objetivo claro de permanecer no poder por meio do controle da magistratura e do Parlamento. O procurador especial adjunto Park Eok‑su afirmou que a natureza do crime é particularmente grave por ter mobilizado recursos materiais que deveriam servir ao interesse coletivo e não a uma estratégia privada de manutenção do poder.
Os factos remontam ao episódio de 3 de dezembro de 2024, quando Yoon, ex‑procurador nacional conhecido pela sua postura dura contra a corrupção, anunciou a suspensão das funções constitucionais do governo e ordenou o envio de tropas ao edifício do Parlamento. A tentativa de impor a **lei marcial** fracassou diante da resistência dramática dos deputados, que permaneceram hasteados na sede da Assembleia Nacional para concluir a votação de uma moção que anulava a medida. A ação deixou uma das marcas mais profundas na democracia sul‑coreana recente e desencadeou a atual ação penal.
O pedido de pena capital surge ao final de uma reconstrução probatória extensa — onze horas — conduzida pela equipe de procuradores especiais liderada por Cho Eun‑suk. Do outro lado, a defesa de Yoon fez uma longa alegação final, por vezes de tom quase teatral, chegando a comparar o ex‑presidente a figuras históricas perseguidas e condenadas injustamente, como Galileo Galilei e Giordano Bruno, sustentando a máxima de que “a maioria nem sempre revela a verdade”.
Se condenado, Yoon poderá se tornar o terceiro presidente sul‑coreano declarado culpado por insurreição, seguindo dois líderes militares ligados ao golpe de 1979. Do ponto de vista processual, já figura como o primeiro presidente em exercício detido (janeiro de 2025) e posteriormente destituído em abril, por um processo de impeachment confirmado pela Corte Constitucional.
O julgamento envolve oito réus apontados como líderes do pedido de lei marcial, entre eles o ex‑ministro da Defesa Kim Yong‑hyun — para quem a acusação requereu prisão perpétua — e o ex‑chefe da Agência Nacional de Polícia, Cho Ji‑ho. A sessão, que deveria ter sido concluída em 9 de janeiro, foi adiada depois de longos debates e da análise exaustiva de provas, incluindo as referentes a Kim.
Importa notar que a Coreia do Sul é, na prática, abolicionista da pena capital: não executa sentenças desde dezembro de 1997. Fontes judiciais indicam que a sentença poderá ser proferida no início de fevereiro, o que transformaria o veredito em um novo marco jurídico e político, com consequências que ultrapassariam as fronteiras nacionais.
Do ponto de vista estratégico, tratou‑se de um movimento abrupto no tabuleiro — uma tentativa de mover peças institucionais decisivas sob a égide da ordem pública, que encontrou resistência e inaugurou um processo de responsabilização sem precedentes na democracia sul‑coreana. A sentença, quando conhecida, será um novo passo na reconfiguração dos alicerces da diplomacia e da política interna do país.






















