Bruxelas, 22 de janeiro de 2026 — Às 19h de hoje reúne‑se, em caráter extraordinário, o Conselho da União Europeia para articular uma resposta política aos recentes e relevantes desenvolvimentos diplomáticos trazidos de Davos. No epicentro deste encontro estão as relações transatlânticas, a situação na Ucrânia e as implicações do acordo anunciado entre o presidente Trump e a OTAN relativo à Groenlândia.
Nos últimos dias, em Davos, desenhou‑se um movimento que reconfigura, ainda que parcialmente, a tessitura das alianças atlânticas. Trump anunciou ter obtido uma intesa com a OTAN sobre a ilha ártica e, num recuo político significativo, prometeu renunciar às tarifas — a ameaça que pairava sobre países europeus que mantêm contingentes em Nuuk e que estava prevista para fevereiro. Esse retrocesso norte‑americano fez com que a opção conhecida nos corredores como “bazooka” — medidas comerciais retaliatórias mais duras por parte de Bruxelas — perdesse impulso imediato.
Ainda assim, é um erro interpretar o episódio como uma simples vitória retórica. A irritação europeia frente ao estilo e às exigências do presidente americano permanece elevada. A decisão de manter, não obstante o recuo de Washington, a cimeira extraordinária dos 27 revela que Bruxelas pretende analisar o conjunto das implicações: soberania, presença militar, direitos de exploração e as condições para um aumento europeu de investimentos na Groenlândia. Um Colégio de Comissários está marcado para voltar a pronunciar‑se já amanhã, 23 de janeiro, sobre propostas que preveem um reforço massivo de capital público e privado no território ártico.
Paralelamente, o outro nó estratégico que atravessa a agenda do Conselho é a guerra na Ucrânia. Hoje, ao meio‑dia, realiza‑se o encontro entre Trump e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky — um diálogo cujo resultado condicionará diretamente a postura europeia. A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, fez um apelo explícito: a União terá de abandonar a sua tradicional cautela e agir com unidade e maior ambição. É esta a mensagem diplomática: se o transatlântico não for um corredor previsível, a União deverá reforçar os seus instrumentos de influência e dissuasão.
Do lado dos Estados‑membros, emergem diferentes leituras. O chanceler Friedrich Merzin — citado nos debates de Davos — insistiu na urgência de recuperar competitividade económica, enquanto outros governos meditam um reposicionamento estratégico que alguns analistas descrevem como um afastamento progressivo de políticas de ingerência externa sem cálculo de custos. Em termos de geopolítica, trata‑se de um reposicionamento que reconta linhas de poder; uma espécie de redesenho de fronteiras invisíveis onde investimentos, bases militares e acordos de segurança traçam novas rotas de influência.
Minha leitura: o encontro de hoje é um movimento decisivo no tabuleiro. A suspensão temporária da “bazooka” não apaga a necessidade de uma resposta europeia coordenada. Bruxelas precisa alinhar alicerces — económicos, diplomáticos e militares — para não ver suas opções reduzidas a reações episódicas. A tectônica de poder que se abriu no Ártico e no flanco leste europeu exigirá do bloco uma arquitetura estratégica mais robusta e menos improvisada.
Às 19h, portanto, o Conselho não apenas discutirá notícias de salão; terá de decidir os contornos de uma política que combine solidariedade transatlântica com autonomia estratégica europeia. O resultado terá impacto direto nas próximas semanas: desde decisões sobre investimentos na Groenlândia até medidas de apoio e coerência política relacionadas com a Ucrânia.
Marco Severini — analista de geopolítica e estratégias internacionais, La Via Italia.






















