Na noite de quinta-feira, 15 de janeiro, reuniu‑se em caráter de emergência o Conselho de Segurança da ONU para tratar da escalada política e social no Irã. A sessão refletiu, com clareza tática, um confronto de narrativas entre Washington e Teerã, e expôs um tabuleiro de xadrez diplomático em que cada movimento pesa sobre a estabilidade regional.
O embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, declarou-se solidário ao “corajoso povo iraniano” e afirmou que seu país “não exclui nenhum tipo de ação ou intervenção para parar a tragédia” em curso. Waltz reiterou que todas as opções permanecem sobre a mesa, repetindo o tom beligerante vindo da Casa Branca sob a administração de Trump, que tem condicionado pressão e mobilização militar à possibilidade de um ato decisivo contra Teerã. Em seu discurso, o representante norte‑americano descreveu o governo iraniano como “mais fraco do que nunca” e atribuiu a repressão atual ao medo do regime diante das manifestações.
Em contraponto, o representante iraniano na ONU, Gholamhossein Darzi, acusou diretamente os Estados Unidos e Israel de responsabilidade pelas violações e mortes ocorridas nas últimas semanas, afirmando que ambos têm “as mãos sujas de sangue de civis iranianos inocentes”. Darzi advertiu que qualquer intervenção externa acarretará “consequências graves”, projetando uma lógica de dissuasão que visa elevar o custo estratégico de uma operação estrangeira.
Ao centro da crise estão as protestos que se arrastam desde o fim de dezembro, alimentados — segundo acusações iranianas — por serviços de inteligência externos como o Mossad e a CIA, e, segundo diplomatas ocidentais, por uma insatisfação interna com o aparato do poder. Paralelamente, relatórios sobre evacuações de cidadãos de países ocidentais de Teerã e a movimentação naval dos Estados Unidos — com menções ao eventual deslocamento do porta‑aviões USS Lincoln — intensificaram o clima de apreensão.
Analiticamente, a retórica belicosa de Washington funciona como pressão estratégica: é um movimento público destinado tanto a demonstrar comprometimento com opositores internos ao regime iraniano quanto a redesenhar, em ato de força, o mapa de credibilidade entre aliados regionais. Ainda assim, sinais de prudência emergem entre parceiros dos EUA no Oriente Médio, o que limita o horizonte operacional de qualquer ação militar imediata.
Do lado iraniano, o argumento central é de soberania e de defesa contra o que é percebido como engenharia externa de subversão. Ao denunciar perdas de civis e integrantes das forças de segurança, Teerã constrói um discurso que busca mobilizar solidariedades regionais e internacionais, dificultando a construção de uma coalizão que legitime uma intervenção direta.
Em termos de equilíbrio regional, a situação desenha uma tectônica de poder em que nenhum ator tem interesse claro numa guerra total: o custo humanitário, econômico e geopolítico seria elevado. Ainda assim, a combinação entre mobilização de rua, pressões externas e ameaças explícitas cria um ambiente volátil, em que passos em falso podem provocar escaladas rápidas — como em um tabuleiro de xadrez em que um peão mal calculado abre caminho para um xeque‑mate inesperado.
Conclui‑se que a sessão do Conselho de Segurança da ONU revelou mais do que posições: expôs alicerces frágeis da diplomacia contemporânea e a dificuldade de traduzi‑los em políticas que contenham a crise sem ampliar o círculo das hostilidades. A leitura prudente recomenda vigilância diplomática intensiva, canais discretos de diálogo e a busca por soluções que reduzam o risco de uma ação militar direta, preservando, na medida do possível, a integridade das instituições regionais.






















