Por Marco Severini — A tensão regional entrou em uma nova fase três dias após o início da operação militar conjunta entre EUA e Israel atribuída a confrontos com o Irã. O conflito, inicialmente focalizado, alargou-se em múltiplos eixos e não há sinais de recuo nem temporal nem geográfico: a tectônica de poder da região está em rápida movimentação.
Na noite de domingo, o movimento xiita Hezbollah lançou uma campanha de mísseis e drones contra o norte de Israel, em resposta às ações que Teerã e seus aliados consideram agressões. O IDF reagiu com uma intensa campanha de bombardeios contra alvos no sul e leste do Líbano, incluindo setores meridionais de Beirute, onde a organização mantém sua principal fortaleza. O episódio marca um redesenho de fronteiras invisíveis entre as linhas de frente, com consequências imprevisíveis para a estabilidade local.
O governo libanês, determinado a evitar uma repetição do devastador conflito de 2024, anunciou a proibição imediata de quaisquer ações militares do Hezbollah, classificando-as como ilegais e exigindo a entrega de armamentos. Apesar da declaração, os disparos continuaram e, na manhã seguinte, o exército israelense entrou em solo libanês com a intenção declarada de estabelecer uma zona cuscinetto destinada a empurrar a linha de combate para longe das áreas civis.
Em um novo e preocupante teatro, a base britânica de Akrotiri, em Chipre, foi atacada por drones por duas ocasiões distintas, ataques reivindicados por milícias pró-iranianas que operam na região do Líbano. Não houve vítimas identificadas até o momento, mas a base foi evacuada por precaução, assim como o aeroporto de Pafos — com dezenas de voos cancelados. Londres, que disponibilizou suas bases sob um entendimento de uso defensivo, estuda agora o envio do destróier HMS Duncan para reforçar a segurança da instalação.
De Bruxelas, a Comissão Europeia salientou que o alvo foi a base britânica e não Chipre como Estado, e por enquanto não se discute a ativação da cláusula de defesa mútua. A resposta diplomática segue cautelosa: interessa às capitais europeias evitar uma escalada direta que arraste a OTAN para um confronto mais amplo.
No flanco sírio, fontes do Comando Norte israelense reportam movimentações de tropas e armamentos nas colinas das alturas do Golan. Tel Aviv interpreta esse reposicionamento como uma violação dos entendimentos relativos ao controle da fronteira e advertiu as autoridades de Damasco — lideradas por Bashar al-Assad — para que não explorem a operação contra o Irã e o Hezbollah como pretexto para atingir as comunidades drusas no sul da Síria.
Teerã, por sua vez, afirmou ter retaliado ao ataque conjunto de Estados Unidos e Israel com o lançamento de ondas de mísseis e drones rumo a países do Golfo que abrigam forças americanas. Alvos relatados incluem bases militares, portos, aeroportos e infraestruturas petrolíferas em Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Omã, Iraque, Kuwait e Arábia Saudita. O padrão de ataques revela uma tentativa clara de ampliar o teatro de operações e forçar recalibrações estratégicas por parte das potências regionais e globais envolvidas.
Estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: cada incidente atua como um afunilador de decisões, onde a diplomacia precisa reconstruir alicerces fragilizados para evitar um deslize para um conflito generalizado. A atenção internacional deve concentrar-se em linhas de comunicação entre Washington, Tel Aviv e Teerã, ao mesmo tempo em que se monitora o envolvimento indireto de capitais europeias e das forças regionais que, por ação ou omissão, podem redesenhar — rapidamente — a arquitetura de segurança do Oriente Médio.






















