Por Marco Severini — A recente escalada entre EUA e Irã traz à tona, com crueza estratégica, a questão do enriquecimento do urânio. Para compreender as escolhas políticas é preciso antes dominar os fundamentos técnicos: o urânio existe em isotopos, isto é, átomos com o mesmo número de prótons (92) e distinto número de nêutrons. Os dois isotopos relevantes são o U-238, presente em quase toda a massa natural do elemento, e o U-235, que concentra cerca de 0,7% do urânio natural e é o combustível dos reatores comerciais de água leve.
Em termos práticos, um reator a água leve exige uma porcentagem de U-235 sensivelmente maior que o nível natural — tipicamente cerca de 3% — o que impõe a necessidade do enriquecimento. Há três rotas tecnológicas para esse objetivo. As duas historicamente consagradas são a difusão gasosa e a centrifugação gasosa; a terceira, mais recente e ainda estratégica, envolve técnicas a laser baseadas em diferenças espectroscópicas entre isotopos.
No método da difusão gasosa o urânio metálico é convertido em hexafluoreto de urânio (UF6) através de reação com flúor. Esse gás é então forçado a atravessar uma série de barreiras porosas. A separação se apoia na ínfima diferença de massa molecular entre U-238 e U-235 — inferior a 1,5% — de modo que o componente mais leve (U-235) difunde-se ligeiramente com maior facilidade. Em cascata, com dezenas ou centenas de barreiras, obtém-se o enriquecimento desejado. O custo energético dessa rota é, porém, extremamente elevado: a «conta de luz» dos complexos de difusão foi um dos fatores que levaram muitos países a desinvestir nessa tecnologia.
A centrifugação gasosa representa, no tabuleiro industrial, um movimento muito mais eficiente. Também trabalhando com UF6, o processo explora a leve diferença de peso molecular através da rotação do gás em centrífugas de altíssima velocidade angular. O perfil aerodinâmico e as forças centrífugas segregam os isotopos, e séries de centrífugas organizadas em cascata alcançam os graus comerciais de enriquecimento. Em termos comparativos, a centrifugação tem custo energético substancialmente menor — estimativas técnicas situam-no em torno de 4% do consumo da difusão — e eficiência por estágio superior, com ganhos na ordem de 30–40% por unidade operativa.
A técnica por laser explora o chamado deslocamento isotópico: níveis energéticos levemente distintos entre U-235 e U-238 que podem ser excitados por luz afinada. A ionização seletiva ou excitação preferencial do U-235 permite separá-lo com custos potencialmente baixos e elevada eficiência, razão pela qual essa rota é considerada estrategicamente sensível e alvo de vigilância internacional.
Ao término do processo, o UF6 é reconvertido para metal ou óxidos conforme a aplicação — combustível de reator ou outras finalidades — e todo o ciclo impõe desafios logísticos, de segurança e de não proliferação. No grande jogo da geopolítica, o domínio de uma técnica de enriquecimento é um movimento decisivo no tabuleiro de xadrez: confere autonomia energética, cria espaços de influência e reabre, sempre, debates sobre salvaguardas e risco militar.
Entender essas tecnologias é, portanto, ler a arquitetura dos poderes contemporâneos. Os alicerces frágeis da diplomacia perdem estabilidade quando capacidades de enriquecimento se multiplicam sem transparência. Como em uma cartografia estratégica, é preciso mapear capacidades, intenções e limites — não para alarmar, mas para orientar políticas que preservem a estabilidade e contenham a tectônica de poder que se redesenha em torno do átomo.






















