Por Marco Severini — Em uma declaração de tom seco e sem ambiguidades, o Comitê do Nobel reafirmou que “um vencedor do Prêmio Nobel da Paz não pode compartilhar o prêmio com outros, nem transferi-lo depois de anunciado”. A nota, publicada após o gesto simbólico de María Corina Machado ao entregar sua medalha a Donald Trump, expressou forte indignação e esclareceu os limites legais e históricos que regem o prêmio.
O Comitê enfatizou que, uma vez conferido, o reconhecimento é definitivo e não sofre REVOGAÇÃO por ações do laureado. A medalha, o diploma e a quantia em dinheiro que compõem o prêmio são, de fato, propriedade do laureado, mas essa titularidade não altera a identidade histórica do prêmio: o registro de quem recebeu o Nobel permanece imutável.
Para ilustrar precedentes, o Comitê do Nobel citou atitudes que, embora envolvam a transferência física do objeto, não mudaram a natureza do laureado: Kofi Annan doou sua medalha ao Escritório das Nações Unidas em Genebra e o jornalista Dmitry Muratov vendeu a sua para financiar ajuda a crianças ucranianas. Segundo o Comitê, são gestos distintos, de valor e intenção diferentes, quando comparados ao ato de doar a medalha recebida para um terceiro que não é o laureado.
O gesto de María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, foi descrito por ela mesma como um “momento emocionante” e um reconhecimento do compromisso — na sua visão — de Donald Trump com a liberdade na Venezuela e na região. Na prática, o ato foi recebido pelo palco internacional como uma jogada simbólica: um movimento no tabuleiro diplomático que procura realinhar legitimidades e construir um novo eixo de influência.
Donald Trump reagiu com cortesia pública, qualificando Machado como “uma mulher muito gentil” e descrevendo a recepção da medalha como “um gesto muito carino”. O ex-presidente, que já se declarou merecedor do Nobel em outras ocasiões, recebeu o objeto como um símbolo pessoal — porém, como esclarece o Comitê do Nobel, o gesto não altera os registros do prêmio.
O comunicado também fez referência a eventos recentes de alta tensão na região: no dia 3 de janeiro, uma operação americana, atribuída à iniciativa de Trump, resultou na captura de Nicolás Maduro — um episódio que contribui para a tectônica de poder que molda a percepção externa sobre a crise venezuelana e que contextualiza a simbologia do ato de Machado.
Em termos práticos e jurídicos, a nota do Comitê do Nobel sela a questão: a entrega física de um objeto associado ao prêmio pode ser um gesto político, mas não altera a titularidade histórica do laureado nem as regras que regem o prêmio. Em chave estratégica, trata-se de um movimento cuja relevância real será medida na arena política — e não apenas na simbólica —, onde se desenham, passo a passo, as novas fronteiras de influência e legitimidade.
O episódio deixa uma lição clara aos atores que tentam redesenhar, por gesto, cenários diplomáticos: no tabuleiro da política internacional, símbolos importam, mas os alicerces institucionais e as regras permanentes conservam prioridade. Resta observar como esse movimento influenciará as relações entre Washington, Caracas e os aliados europeus nos próximos meses.





















