Por Marco Severini — Em um movimento carregado de simbolismo e consequências geopolíticas, cerca de 1.500 colonos israelenses reuniram-se ao longo da fronteira com Gaza e marcharam em direção à faixa, carregando bandeiras e acompanhados de crianças. A demonstração reivindicou a construção de novos insediamentos e a ocupação permanente do território palestino — uma ação que ocorre em meio à grave crise humanitária que assola a população da faixa de Gaza.
Os organizadores qualificaram a marcha como um apelo à reinstalação de comunidades e à presença contínua de Israel no enclave. Entre as vozes de projeção pública esteve a líder do movimento dos colonos, Daniella Weiss, que declarou que “Gaza pertence ao povo de Israel” e, em vídeo, afirmou ainda que “a história dos palestinos terminou. Eles ainda estão lá, mas não falta muito para que se vão”. Essas palavras, inequívocas em sua negação do estatuto político e identitário palestino, reverberam como um projeto de alteração definitiva das realidades demográficas e territoriais.
À mobilização também se somou a parlamentar de direita Limor Son Har-Melech, conhecida por seu apoio à ocupação de Gaza e à reconstrução de assentamentos removidos em 2005. Organizadores informaram que entre os participantes havia famílias de reservistas e pessoas afetadas pelos conflitos recentes, mas a marcha assumiu sobretudo o formato de reivindicação territorial sobre uma população que vive sob cerco e privação.
O episódio se insere num padrão mais amplo de tensões: denúncias de demolições de casas e expulsões na Cisjordânia, operações de forças israelenses em localidades como Tarqumia e ordens de abandono a populações beduínas em vilarejos como al-Maghayyir. Paralelamente, milhões de habitantes de Gaza continuam enfrentando falta de acesso adequado a alimento, água, cuidados médicos e abrigo, depois de meses de bombardeios, cerco e colapso de serviços essenciais — uma emergência humanitária que marca o contexto imediato da marcha.
Como analista atento aos deslocamentos de poder, vejo essa mobilização como um movimento de peça no grande tabuleiro estratégico regional. A insistência em insediamentos e na permanência territorial não é apenas uma expressão de reivindicação local; é um esforço para alterar, na prática, alicerces da diplomacia e da possibilidade de qualquer solução negociada. Trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis — uma tectônica de poder que empurra a realidade em direção à consolidação de factos consumados sobre o terreno.
Internacionalmente, esse tipo de iniciativa tende a polarizar atores: enquanto setores domésticos pressionam por segurança e expansão, atores externos que defendem a solução de dois Estados enxergam um obstáculo adicional. A retórica negacionista pronunciada em vídeo por Weiss agrava a dimensão simbólica do confronto — é a tentativa de anular o reconhecimento histórico e jurídico do outro, estratégia que fragiliza os alicerces de qualquer reconciliação futura.
Em termos práticos, a presença ostensiva de colonos com apoio político direto pode catalisar uma escalada de violência e disposições administrativas que acelerem desapropriações e demolições, aprofundando a crise humanitária e minando vias de mediação. No tabuleiro regional, cada movimento deste tipo reordena alianças, amplia a janela para ações unilaterais e reduz o espaço de manobra para soluções multilaterais.
Enquanto a comunidade internacional observa, o desenrolar imediato permanecerá condicionado à interação entre decisões no terreno, respostas das forças de segurança e pressão diplomática externa. Em momentos assim, a arquitetura das decisões — construída pedra por pedra — define não apenas o presente, mas as possibilidades de convivência futura.






















