Por Marco Severini — Dois militares italianos dos serviços consulares em Jerusalém foram ameaçados e obrigados a se ajoelhar por um civil armado em solo palestino na região conhecida como Cisgiordania (Cisjordânia). O incidente, que a Farnesina descreve como grave e inaceitável, levou o Ministério das Relações Exteriores da Italia a convocar o ambasciatore israeliano e a emitir uma nota verbale de protesto formal.
Segundo a reconstrução oficial, os dois carabinieri estavam em uma visita de reconhecimento, preparando uma missão de embaixadores da União Europeia em um aldeamento próximo a Ramallah, dentro do território da Autoridade Nacional Palestina. Durante a atividade, foram abordados por um homem em roupas civis — presumivelmente um colono armado — que apontou um fuzil metralhador contra eles e os fez ajoelhar-se.
Os militares exibiam passaportes e tesserini diplomatici e dirigiam um veículo com placa diplomática. Ainda assim, foram submetidos a um interrogatório pelo agressor. Agindo conforme as regras de engajamento estabelecidas, optaram por não responder com força às ameaças iniciais. Em dado momento, o homem repassou-lhes um telefone: do outro lado havia uma voz não identificada que alegou que os carabinieri estariam em uma área militar e deveriam se retirar.
A verificação junto ao COGAT — o comando militar israelense responsável pelos Territórios Palestinos Ocupados — atestou que, naquele ponto, não existe área militar. Os dois militares retornaram ilesos ao Consulado e relataram o episódio à Embaixada e à cadeia de comando da Arma. A Farnesina informou que, por instrução do Ministro dos Negócios Estrangeiros Antonio Tajani, o embaixador italiano em Tel Aviv apresentou protestos junto a várias instâncias israelenses.
O protesto foi elevado aos mais altos níveis: além do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelense, foram acionados o COGAT, o Estado‑Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), a polícia e o Shin Bet. A nota verbale formaliza a solicitação de esclarecimentos e medidas, enquanto a Farnesina anuncia a possibilidade de novos passos políticos e diplomáticos.
Do ponto de vista estratégico, o episódio não é um caso isolado, mas um sintoma das fraturas que permeiam a governança das áreas ocupadas. A presença de agentes consulares estrangeiros em território da Autoridade Palestina é um elemento sensível no tabuleiro: exige garantias de segurança e coordenação entre atores locais e o poder de ocupação. Quando um agressor civil armado consegue intimidar representantes diplomáticos, desemboca numa erosão dos alicerces da diplomacia de presença e na necessidade de reequacionar responsabilidades.
Em termos de realpolitik, a reação italiana — formal e dirigida aos polos de autoridade israelense — segue a logica de um movimento preciso no tabuleiro: busca responsabilizar as instituições competentes, obter garantias concretas e preservar a liberdade de ação diplomática da União Europeia na região. A escalada de respostas ou a sua contenção dependerá da reciprocidade institucional e da disposição de Tel Aviv em demonstrar controle sobre cidadãos que atuam fora de normas legais.
Este incidente exige, portanto, não apenas uma resposta pontual, mas uma revisão das medidas de proteção e da cooperação operacional entre Estados terceiros e as instituições israelenses responsáveis pela segurança nas zonas ocupadas — uma questão cuja solução afetará o equilíbrio de influência e a estabilidade regional.






















