Por Marco Severini — Em um movimento cuidadoso sobre o tabuleiro diplomático, concluiu-se hoje, 06 de fevereiro de 2026, o primeiro round das conversações indiretas entre o Irã e os EUA, realizadas em Omã. Dois ciclos de encontros — um na manhã e outro no início da tarde — deixaram uma impressão inicial de progresso controlado, embora a continuidade dependa de consultas nas respectivas capitais.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, informou que os contatos “iniciaram bem” e que os diálogos, na presente fase, concentraram-se “exclusivamente” na questão do nuclear. Segundo Araghchi, nenhum outro tema — como o programa míssil iraniano ou o apoio tecnológico e militar a aliados regionais — foi objeto de discussão formal durante os encontros em Omã.
Fontes jornalísticas, citadas pelo Wall Street Journal, indicam que a delegação iraniana recusou a suspensão ou o deslocamento para o exterior do processo de enriquecimento do urânio. Em contrapartida, a posição norte-americana, coerente com sua lógica de contenção, pressionou por limitações significativas ao ciclo de enriquecimento e pela transferência, ou redução, de estoques nucleares.
O resultado da sessão foi recebido com cautela por observadores regionais: o Egito, que interveio publicamente após o término dos trabalhos, defendeu a continuidade das negociações como ferramenta necessária para mitigar os riscos de proliferação no conjunto da região. Trata-se de um apelo à manutenção do diálogo — uma estratégia típica de estabilidade preventiva — diante de alicerces diplomáticos que ainda se mostram frágeis.
Do lado do espectro analítico conservador nos EUA, vozes como a do ex-conselheiro de Segurança John Bolton descartaram esperança de acordo, qualificando o processo como “perda de tempo”. Para Bolton, independentemente do palco — Omã, Turquia ou outro — as perspectivas de entendimento são reduzidas, e o risco de escalada permanece concreto.
Paralelamente a estas negociações, houve um endurecimento retórico por parte de Washington: sinais de aumento de tensão, inclusive com orientações públicas que remetem a aconselhamentos para que certos atores “deixem o país”, ampliaram a sensação de pressa estratégica. Esse tipo de manobra ressalta a dupla lógica da diplomacia contemporânea — conversação e dissuasão andando lances paralelos no tabuleiro.
Do ponto de vista táctico, o encontro em Omã representa um movimento inicial relevante mas limitado: concentrou-se em pontos delimitados, abriu canais e aferiu intenções, porém sem avanços decisivos. A continuidade dependerá da capacidade das capitais de traduzir essas impressões iniciais em diretrizes operacionais, num cenário onde as cartas ainda não foram expostas por completo.
Como analista, sustento que estes diálogos se inserem numa tectônica de poder mais ampla: Washington busca conter capacidades nucleares adversas e reafirmar sua influência regional; Teerã, por sua vez, preserva elementos de autonomia estratégica que considera não negociáveis. O equilíbrio futuro exigirá tanto paciência diplomática quanto clareza nos objetivos — movimentos típicos de uma partida em que se medem riscos e ganhos antes de sacrificar peças.
Por ora, o primeiro round terminou sem resolução de impasses fundamentais. O mundo observa: a próxima fase, decidida nas chancelerias, dirá se o jogo se encaminhará para uma prolongada contenção ou para uma nova fase de escalada.






















