Por Marco Severini — O Centro de Coordenação Civil e Militar (CMCC) em Kiryat Gat, sob coordenação dos Estados Unidos, apresentou um documento que descreve a criação de uma “Gaza First Planned Community”, uma área residencial destinada exclusivamente a palestinos e projetada para abrigar até 25 mil pessoas. Fontes divulgadas por meios especializados indicam que o projeto prevê um território localizado em solo atualmente sob controle militar israelense e com supervisão total das Forças de Defesa de Israel (IDF).
Os documentos reservados, cuja circulação foi confirmada por canais vinculados à imprensa internacional, delineiam uma comunidade com acesso rigorosamente controlado: entrada e saída mediante um posto de controle militar, procedimentos de revista e interrogatórios comparáveis aos aplicados na Cisjordânia, e restrições à liberdade de movimento que, segundo observadores, lembram um modelo de “prisão a céu aberto”.
Além da contenção física, o plano inclui a implementação obrigatória de vigilância biométrica para todos os residentes. Dados biométricos associados a números de identificação palestinos, obtidos em coordenação com o COGAT — o organismo militar israelense responsável pelos assuntos civis nos territórios ocupados — seriam empregados para monitorar deslocamentos e controlar acessos dentro da área proposta.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro que reconfigura não apenas a logística humanitária, mas também os alicerces da diplomacia regional. A proposta reacende críticas de organizações de direitos humanos e de alguns governos europeus, que já questionaram a eficácia e a legitimidade do próprio CMCC. Diplomatas de capitais europeias relataram frustração: para muitos, o centro americano tem falhado tanto na distribuição efetiva de ajuda quanto em impedir novas vítimas do conflito.
Relatórios paralelos mencionam o emprego de softwares e plataformas de análise de dados — citados em veículos de imprensa como Palantir, Maven e Dataminr — operacionais no centro militar dos EUA próximo à fronteira com Israel. Esses sistemas, se confirmados como parte integral da arquitetura de controle, apontariam para um redesenho da tectônica de poder sobre o terreno, com a tecnologia servindo de alicerce a práticas de vigilância e gestão populacional.
Nos corredores diplomáticos, a reação é de cautela: diversas capitais europeias estudam reduzir ou suspender sua participação no CMCC, avaliando que a operação pouco contribui para avanços políticos ou para a proteção dos civis. A introdução de uma comunidade estritamente segregada e monitorada levanta questões jurídicas e éticas significativas, sobretudo no que tange ao direito à liberdade de movimento, privacidade e ao princípio de não discriminação.
Como analista, observo que a proposta representa um ponto de inflexão — um dos movimentos mais explícitos na tentativa de institucionalizar soluções territoriais temporárias que podem adquirir contornos permanentes. Em termos estratégicos, a iniciativa reflete um redesenho de fronteiras invisíveis: não apenas muros físicos, mas sistemas de identificação e controle que podem perdurar além das contingências militares.
Sem minimizar as inquietações humanitárias, é preciso também avaliar as implicações operacionais e diplomáticas. A comunidade proposta pela CMCC, se levada adiante, exigirá negociações multilaterais, supervisão independente e salvaguardas jurídicas robustas para evitar que medidas de segurança se convertam em instrumentos de exclusão e de indefinição permanente do estatuto dos habitantes de Gaza.





















