Por Marco Severini — A Comissão de Supervisão da Câmara dos EUA, dominada pelo Partido Republicano, iniciou um procedimento por desacato ao Congresso contra Bill Clinton e Hillary Clinton após a recusa do casal em depor sobre o caso do financista Jeffrey Epstein. Trata-se do primeiro movimento formal que pode encaminhar os ex-presidente e ex-secretária de Estado a uma eventual acusação criminal pelo Departamento de Justiça, caso a investigação prossiga e resulte em denúncia.
Legalmente, a infração por desacato prevê sanções que incluem multa de até US$ 100.000 e pena de reclusão de até 12 meses. Em termos práticos, a ação da Comissão representa um movimento decisivo no tabuleiro político — não apenas para os envolvidos, mas para a tectônica de poder que liga instituições legislativas e procuradorias.
O procedimento é o clímax de um confronto que vem se desenrolando há meses entre os Clinton e o presidente da comissão, o republicano James Comer. O caso Epstein — o financista que morreu por suicídio em custódia em 2019 e que abusou de centenas de adolescentes ao longo dos anos — sempre ocupou uma posição ambígua no centro das elites políticas e econômicas, com laços divulgados a figuras como Donald Trump. A publicação recente de documentos, contudo, trouxe à luz detalhes ampliados sobre interações entre Epstein e o entorno de Bill Clinton. Importante ressaltar: não há acusações penais formais contra Bill Clinton relacionadas a esses fatos.
Republicanos exigem esclarecimentos sobre fotografias que, segundo a Comissão, retratariam o ex-morador da Casa Branca em situações comprometedoras com jovens, além do dado de que Epstein teria visitado o número 1600 da Pennsylvania Avenue 17 vezes durante a presidência de Clinton. Em declaração à imprensa, Comer afirmou que ‘não estão acima da lei’ e que as citações foram emitidas ’em boa-fé’. O republicano rejeitou ainda a proposta do advogado dos Clinton para ouvir Bill em Nova York na presença do deputado democrata Robert Garcia.
Nos bastidores, o advogado dos Clinton, David Kendall, tentara negociar possíveis depoimentos: a Comissão alega que houve oferta para que os Clinton prestassem depoimento já no último Natal. Oficialmente, o casal argumenta que as citações carecem de um propósito legislativo legítimo e afirma não possuir conhecimento dos abusos cometidos por Epstein, propondo apresentar declarações escritas sobre suas relações com o financista falecido.
Do ponto de vista estratégico, este episódio reconfigura fragilmente os alicerces da diplomacia doméstica e do jogo partidário. A iniciativa de Comer, ao mesmo tempo em que procura dar respostas eleitorais e institucionais, testa limites processuais: se o Departamento de Justiça decidir atuar, estaremos diante de um confronto jurídico que poderá traduzir em ação penal questões até então tratadas como escândalo político. É um redesenho de fronteiras invisíveis entre poder, responsabilidade e exposição pública.
Resta acompanhar se o processo por desacato converter-se-á em acusação formal. No tabuleiro do poder, cada peça — evidência, testemunho escrito, recusa a depor — pode alterar o equilíbrio de forças. A prudência institucional e a clareza probatória serão determinantes para que a ação não se dilua em disputa partidária, mas avance como uma questão de aplicação da lei.






















