Hillary Clinton prestou depoimento, a portas fechadas, no Estado de Nova York perante a Comissão de Vigilância da Câmara no âmbito dos chamados Epstein Files. Em tom contido, mas firme, a ex‑secretária de Estado declarou que nunca encontrou Jeffrey Epstein, nunca frequentou suas propriedades nem utilizou seus meios de transporte. Ainda assim, surgiram elementos documentais imprevistos: uma fotografia de Ghislaine Maxwell presente no casamento de Chelsea Clinton chamou atenção dos investigadores.
No seu pronunciamento de abertura, Clinton adotou postura crítica em relação ao modo como o Congresso tem conduzido a investigação. Segundo a ex‑first lady, a comissão adotou uma conduta parcial e marcada por falta de transparência, concentrando esforços em sua convocação em vez de aprofundar linhas de investigação consideradas centrais.
Com a sobriedade de quem pondera jogadas num tabuleiro, Clinton argumentou que uma comissão comprometida com a busca da verdade deveria ter investigado a alegada remoção de arquivos do sítio do Departamento de Justiça dos EUA. Entre os documentos que teriam desaparecido, segundo reportagem da National Public Radio (NPR), estariam arquivos que citam acusações sobre supostos abusos envolvendo o atual presidente Donald Trump. A ex‑secretária de Estado instou a comissão a averiguar essas lacunas documentais, entendendo que são alicerces frágeis da investigação que carecem de reforço.
Mais contundente, ela pediu que o próprio Donald Trump fosse formalmente convocado e interrogado sob juramento. “Se esta comissão fosse séria”, disse Clinton, no sentido de que as perguntas cruciais não podem ser evitadas por decisões políticas. A exigência de depoimento presidenciável configura um movimento estratégico: questionar personagens centrais sob juramento é instrumental para reconstruir a tectônica de poder subjacente aos arquivos.
O fenômeno dos Epstein Files ganhou nova dimensão quando milhões de documentos e e‑mails ligados a Jeffrey Epstein passaram a estar acessíveis online, revelando menções a figuras públicas diversas — de políticos e empresários a artistas internacionais, com nomes que emergiram em matérias anteriores como Trump, o ex‑primeiro‑ministro italiano Giuseppe Conte, e celebridades do cinema. A multiplicidade de referências exige uma investigação rigorosa, sem atalhos de espetáculo.
Como analista que privilegia a paciência estratégica e o rigor histórico, observo que este episódio não é apenas um escândalo pessoal: é um redesenho de fronteiras invisíveis entre poder, impunidade e documentação pública. A convocação de testemunhas chaves, a recuperação de documentos desaparecidos e a transparência processual são movimentos decisivos nesse tabuleiro. A pergunta que permanece é se as instituições estadunidenses — e as comissões encarregadas — terão a vontade política de enfrentar as peças mais sensíveis, sem cuidar apenas da aparência de investigação.
Enquanto isso, o debate público tende a polarizar, mas os fatos documentais devem ser tratados como peças de evidência que, bem examinadas, podem reconstruir sequências e responsabilidades. As próximas etapas dependerão, em última instância, da capacidade dos poderes institucionais de priorizar a verdade processual sobre as manobras de curto prazo.






















