Por Marco Severini — Em um movimento que remete a um lance decisivo no tabuleiro de xadrez da política americana, Bill Clinton e Hillary Clinton aceitaram depor perante uma comissão do Congresso sobre os arquivos recentemente divulgados no caso Jeffrey Epstein. As audiências ocorrerão nos dias 26 (ex-secretária de Estado) e 27 de fevereiro (ex-presidente), em uma sequência que tem potencial para redesenhar, mesmo que discretamente, a tectônica de poder entre as forças partidárias.
O último vazamento de documentos do Departamento de Justiça reacendeu questões já incômodas: a publicação incluiu milhões de páginas e material gráfico — com nomes, fotos e vídeos de vítimas, algumas menores à época — e reiterou laços entre membros da alta sociedade, figuras políticas e o financiador acusado de tráfico sexual. Entre os registros que chamam atenção da comissão estão as 17 visitas de Epstein ao número 1600 Pennsylvania Avenue durante a presidência de Clinton e os comprovantes de que o ex-presidente teria realizado quatro voos internacionais a bordo do jet privado de Epstein entre 2002 e 2003.
Os Clinton não estão formalmente acusados de crime. No entanto, o Congresso liderado por membros do Partido Republicano, sob a batuta do presidente da comissão de vigilância, James Comer, exige esclarecimentos pormenorizados. O risco prático que precipitou a decisão do casal para depor foi, em boa medida, o da imposição de uma acusação por desacato ao Congresso, infração que pode acarretar pena de até um ano de prisão ou multa de 100 mil dólares.
O contraste entre os atores é claro: por um lado, os republicanos querem que as deposições não tenham limite de tempo e sejam gravadas em áudio e vídeo, instrumento destinado a fixar o depoimento no registro público e amplificar seu efeito político; por outro, os Clinton aceitaram as condições mas colocaram uma condição procedimental — que as entrevistas sejam públicas, numa tentativa calculada de reduzir espaço para edições ou manipulações posteriores que favoreçam narrativas adversárias.
Hillary Clinton afirmou não ter tido encontros ou conversas com Epstein; o círculo dos Clinton também sustentou que as viagens registradas se relacionaram a atividades da fundação do ex-presidente. Ainda assim, a divulgação massiva do material pelo Departamento de Justiça tornou a situação mais delicada, ampliando dúvidas e gerando material que a oposição pretende usar politicamente.
Do ponto de vista institucional, trata-se da primeira vez desde Gerald Ford, em 1983, que um ex-presidente presta depoimento perante uma comissão do Congresso. O evento adquire contornos históricos e simbólicos: além das possíveis consequências pessoais para os depostos, o episódio pode funcionar como um redesenho de fronteiras invisíveis na opinião pública e nas prioridades da agenda política, numa era em que reputações são tão vulneráveis quanto alicerces de arquitetura antiga sob tensão.
Os Clinton, por ora, insistem que já forneceram “as poucas informações” de que dispõem e denunciam caráter persecutório da iniciativa, acusando a comissão de instrumentalização partidária a mando do ex-presidente Donald Trump. A acusação, em termos de narrativa política, é um movimento geopoliticamente pensante: busca deslocar o foco do conteúdo para a intenção, transformando um processo jurídico-institucional em peça do jogo eleitoral.
Minha leitura: a deposição será um campo de prova. Mais do que um exame de fatos isolados, será um teste sobre a capacidade das instituições de produzir clareza num ambiente de alta polarização. Para os estrategistas democratas, o desafio é mitigar o desgaste reputacional sem ceder territorialmente no discurso; para os republicanos, a oportunidade é transformar evidências em vantagem política. Em ambos os lados, a jogada exigirá calma, precisão e consciência dos riscos — exatamente os atributos que definem partidas bem jogadas no grande tabuleiro da política internacional.
Em suma, a chamada para que Bill Clinton e Hillary prestem depoimento representa um movimento com implicações visíveis no curto prazo e reverberações estratégicas no médio prazo. A verdade factual, se confirmada em sua extensão, pode gerar custos reputacionais significativos; mas o desfecho prático dependerá tanto do conteúdo dos documentos quanto das decisões táticas de cada parte no palco do Congresso.






















