Marco Severini – A proposta do pesquisador independente inglês Matthew LaCroix reacende um debate que toca os alicerces da arqueologia e da história: seria possível que uma civilização desaparecida, dotada de conhecimentos avançados de geometria e astronomia, tenha deixado sinais espalhados por continentes há cerca de 40 mil anos?
Resumo da teoria
LaCroix afirma ter identificado, em sítios arqueológicos tão distantes quanto o leste da Turquia, a necrópole egípcia de Giza, o complexo de Tiwanaku na Bolívia e locais no Camboja, um padrão recorrente de formas e monumentos: pirâmides, colunas em forma de T, pirâmides invertidas, esculturas de leões e símbolos geométricos que compõem um código de transmissão de memória. Para o pesquisador, esses elementos fariam parte de um modelo — que ele chama de cosmograma — usado para ensinar a estrutura do universo e preservar relatos de catástrofes.
Os elementos formativos: símbolos e arquitetura
- Pirâmides: presença em várias regiões, interpretadas como sinais de acesso a diferentes níveis cosmológicos (mundo celeste, mundo real, subsolo).
- T gigantes: verticais e transversais, seriam portas ou eixos — o que LaCroix associa ao conceito clássico do axis mundi.
- Pirâmides invertidas: símbolos do submundo ou do inconsciente coletivo, segundo a proposta.
- Figuras zoomórficas (leões) e sinais geométricos: supostos marcadores de orientação astronômica e de memória coletiva.
Datas e cronologia
Abandonando as convenções cronológicas aceitas pela arqueologia mainstream, LaCroix propõe que essas estruturas foram erigidas há cerca de 38 a 40 mil anos. Essa recuagem temporal implica um redesenho invisível das fronteiras do conhecimento humano: é um movimento decisivo no tabuleiro historiográfico que, se confirmado, reescreveria capítulos essenciais sobre a origem das técnicas e do pensamento simbólico.
O ‘cosmograma’ e a mensagem codificada
Segundo o pesquisador, o cosmograma seria um sistema simbólico geométrico utilizado para transmitir uma compreensão integrada do céu, da Terra e do subsolo. Em termos simplificados, LaCroix afirma que:
- a ‘porta esquerda’ conduziria ao reino do real e do infernal;
- a ‘porta direita’ apontaria para o mundo celeste;
- a letra T representaria a porta de meio ou o eixo que une esses domínios, funcionando como um arquitrave entre os mundos.
Essa interpretação mistura iconografia com cosmologia prática — uma arquitetura simbólica que pretende ser ao mesmo tempo mapa e manual de sobrevivência coletiva.
Proveniência arqueológica e locais citados
LaCroix sustenta que exemplares desse sistema se encontram nos chamados sítios de Ionis e Kefkalesi, no leste da Turquia, em monumentos de Giza (Egito), em Tiwanaku (Bolívia) e em construções do Sudeste Asiático. A hipótese coloca em evidência uma cartografia de sinais que atravessaria oceanos e milênios — um mapa de influência mais do que uma migração simples.
Recepção acadêmica e pontos de cautela
É imperativo frisar que essa linha interpretativa é altamente controvérsia e que a comunidade científica tem históricos de resistência a reclasificações dramáticas sem provas contundentes. Entre as principais reservas estão:
- metodologia de datação: recuar as cronologias exige técnicas replicáveis e amostras claras;
- correlação versus causalidade: sem evidências de contato direto, semelhanças formais podem decorrer de convergência cultural;
- contexto arqueológico: fragmentos fora de estratigrafias claras perdem força como prova de um código unificado.
Do ponto de vista estratégico, tratamos aqui de uma hipótese que funciona tanto como provocação científica quanto como teste para os limites da disciplina: até que ponto as interpretações simbólicas substituem a prova material?
Implicações geopolíticas e culturais
Se tal hipótese obtiver respaldo, haveria um redesenho dos eixos de influência cultural e um reposicionamento das narrativas nacionais sobre patrimônio e ancestralidade. A tectônica de poder cultural poderia ser alterada, suscitando disputas de propriedade intelectual e patrimonial entre Estados e comunidades indígenas.
Conclusão analítica
Como diplomata da informação e analista, observo que a proposta de LaCroix opera no limiar entre arqueologia, mito e geopolítica. É uma jogada audaciosa no tabuleiro do saber: pode revelar um padrão até então despercebido ou pode funcionar como espelho de uma necessidade contemporânea de encontrar origens grandiosas. O caminho razoável é o da verificação interdisciplinar — arqueometria, estratigrafia, linguística e astronomia cultural — antes de reconstruirmos a cartografia da história humana.






















