Por Marco Severini — Em um movimento que combina prudência técnica e cálculo geopolítico, China anunciou uma proibição sobre as chamadas maniglie ‘a filo’ (conhecidas em português como maçanetas ‘a fio’ ou embutidas) nas vendas de automóveis a partir de 1º de janeiro de 2027. A determinação, comunicada pelo Ministério da Indústria e da Informação, exige que todos os veículos comercializados no país disponham de maçanetas externas e internas acionadas mecanicamente, com exceção temporária para modelos já homologados, que terão mais dois anos para se adequar.
Na superfície, trata‑se de uma norma técnica voltada à segurança. Mas, visto através do prisma da tectônica de poder e da gestão do risco, a decisão desenha um redesenho de fronteiras invisíveis: as normas de segurança configuram agora mais um tabuleiro onde se jogam vantagens competitivas e controle de padrões industriais. As maçanetas retráteis, populares entre veículos elétricos por sua integração estética à carroceria, são apontadas como potencial fator de risco em acidentes, sobretudo quando dependem de circuitos elétricos que podem falhar no momento crítico.
O caso concreto que catalisou a resposta regulatória remonta a outubro, quando socorristas não conseguiram abrir as portas de um veículo elétrico da marca Xiaomi após um incêndio decorrente de um acidente na cidade de Chengdu; o condutor, segundo relatos, estava sob efeito de álcool e faleceu. Esse episódio expôs os alicerces frágeis da segurança — a aparência elegante das soluções técnicas não pode suplantar a redundância operacional necessária em cenários extremos.
Além da exigência de mecanismos mecânicos, novas normas publicadas pelo Ministério dos Transportes determinam também a melhoria na visibilidade das maçanetas internas, inclusive com a obrigatoriedade de sinalização dentro do veículo para orientar o uso em emergência. Trata‑se de uma intervenção dupla: uma barreira física (mecanismos mecânicos) e uma camada informacional (sinalização interna) — arquitetura clássica da segurança aplicada ao automóvel.
A decisão ocorre no contexto do maior mercado mundial de veículos elétricos, onde dezenas de fabricantes chineses consolidaram cadeias de produção e um intenso processo de internacionalização. Em 2025, segundo estatísticas divulgadas em janeiro, o fabricante chinês BYD vendeu mais veículos elétricos em um ano do que a rival americana Tesla, assumindo a liderança global do setor. A mudança normativa, portanto, não é apenas técnica: pode afetar desenho de produto, custos de engenharia e competitividade externa das montadoras que almejam mercados além da China.
Como num lance de xadrez bem calculado, Pequim avança sobre um detalhe técnico que reverbera sobre a cadeia industrial inteira. Exige‑se dos fabricantes adaptação em prazos definidos, com impacto sobre projetos futuros e veículos já homologados. Para observadores internacionais, a movimentação sinaliza uma China que reforça seus padrões internos enquanto protege consumidores e molda as regras do jogo industrial global.
Em suma, a proibição das maçanetas ‘a fio’ é um movimento que conjuga segurança pública, disciplina normativa e estratégia industrial. Resta ver como os fabricantes, em particular os que expandem suas operações para além das fronteiras chinesas, responderão ao novo desenho regulatório: um ajuste de engenharia, um reposicionamento de produto ou um lento redesenho das prioridades tecnológicas.





















