Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento que redesenha, mais uma vez, os contornos do poder militar em Pequim, Zhang Youxia — até aqui considerado o número um entre os militares chineses, membro do Politburo e vice-presidente da Comissão Militar Central — foi oficialmente colocado sob investigação por suspeitas de “graves violações da disciplina e da lei”, expressão que no vocabulário do Partido Comunista costuma significar acusações de corrupção.
Fontes estatais confirmam que, paralelamente, também está sob apuração Liu Zhenli, membro da Comissão Militar Central e chefe do Departamento do Estado‑Maior Conjunto. A investigação é conduzida diretamente pelo Comitê Central do Partido, sinalizando que esta não é uma iniciativa periférica, mas sim um movimento deliberado no centro do sistema de comando.
A ausência de Zhang Youxia em um seminário central do Partido, no dia 20 de janeiro, onde compareceram os demais membros do Politburo e que teve ampla cobertura pela CCTV, já havia alimentado especulações online sobre sua situação. Agora, com a instauração formal do processo investigativo, a Comissão Militar Central se aproxima de um ponto de quase redefinição: após as ondas de demissões e inquéritos de 2025 — que atingiram generais de topo como He Hongjun, He Weidong e Miao Hua — a cúpula militar parece novamente se ver em processo de renovação forçada.
Desde 2012, ano da ascensão de Xi Jinping, mais de 200 mil militares de diferentes patentes foram alcançados por operações disciplinares que, segundo analistas, têm duas faces: consolidam a lealdade pessoal ao líder e, simultaneamente, corroem parte da coesão institucional da força. Há avaliações que apontam para um risco real de comprometimento da capacidade operacional do Exército Popular de Libertação (EPL), caso essas purgas continuem sem uma transição orgânica de comando.
O episódio é particularmente notável porque Zhang Youxia, 75 anos, é tradicionalmente visto como um dos oficiais mais próximos a Xi Jinping e um dos poucos com experiência de combate. Filho de um revolucionário que lutou ao lado do pai de Xi durante a guerra civil, Zhang acumulou uma carreira longa e simbólica dentro das fileiras militares — um alicerce humano e simbólico que agora é abalado.
Alguns observadores sugeriram a hipótese de uma tomada de poder dentro do EPL, mas essa interpretação tende a desconsiderar a arquitetura real de comando construída por Xi: um desenho de controle político absoluto sobre as forças armadas, cuja lógica é tanto de disciplina quanto de centralização do poder. A remoção de figuras de alto escalão, portanto, pode ser vista como um movimento estratégico no tabuleiro, destinado a recalibrar lealdades e consolidar um eixo de influência pessoal e institucional.
O segundo vice‑presidente em exercício, Zhang Shengmin, assumiu seu posto em outubro, após a queda de He Weidong — outro capítulo da série de limpezas internas que remodelam continuamente a liderança militar. A tensão entre estabilidade institucional e purga política desenha uma tectônica de poder que merece acompanhamento atento: cada movimento no tabuleiro influencia não apenas a hierarquia castrense, mas a projeção externa da China e a previsibilidade de suas decisões estratégicas.
Em suma, a investigação contra Zhang Youxia é um testemunho recente de como os alicerces da diplomacia e da autoridade militar chinesa estão sendo esculpidos por uma combinação de disciplina partidária, lealdade pessoal e recalibragem do poder — um processo que reorganiza fronteiras visíveis e invisíveis dentro do aparelho de Estado.






















