Por Marco Severini — Em um movimento que lembra uma jogada cautelosa no centro do tabuleiro diplomático, a ex-duquesa de York, Sarah Ferguson, refugiou-se na clínica suíça Paracelsus Recovery, em Zurique, após o abalo causado pela divulgação dos chamados arquivos caso Epstein.
Fontes próximas à família relataram ao Daily Mail que, visivelmente abalada pelo escândalo que atingiu não apenas o ex-marido, Andrew Mountbatten-Windsor, mas também seus próprios laços com o financista Jeffrey Epstein, a duquesa, hoje com 66 anos, deixou o Reino Unido logo após o Natal e permaneceu em tratamento até o final de janeiro.
A escolha pelo centro de recuperação não é trivial: a Paracelsus Recovery é conhecida por oferecer programas intensivos de recuperação psicológica a clientes de altíssimo poder aquisitivo, com custo estimado em 13.000 libras por dia — cerca de 15.000 euros. Trata-se de um santuário médico que combina equipe multidisciplinar, serviço discreto, motoristas privados e chefs pessoais, tudo pensado para preservar a privacidade e restabelecer estabilidade emocional.
Do ponto de vista estratégico, é possível interpretar essa retirada como um recuo calculado, destinado a dar cobertura a uma figura pública em risco reputacional enquanto as repercussões legais e midiáticas se desenrolam. A publicação dos ficheiros do caso Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou uma teia complexa de relações, colocando em evidência e-mails e trocas que demonstram pedidos de ajuda financeira da própria Sarah Ferguson a Epstein e episódios que envolveram suas filhas, as princesas Beatrice e Eugenie.
As mensagens trazidas à tona mostram a ex-duquesa em apelos francos a Epstein para saldar dívidas, inclusive cogitando aceitar um cargo subalterno como assistente doméstica. Em outro trecho, ela se desculpa por tê-lo denunciado publicamente, qualificando-o simultaneamente como um “amigo fiel, generoso e supremo” — declarações que complicam ainda mais a percepção pública sobre os limites entre amizade e conivência num círculo social de elite.
O fato de Sarah Ferguson ter levado as princesas Beatrice e Eugenie a um almoço com Epstein apenas cinco dias após sua libertação é, por si só, uma peça inquietante na narrativa: um movimento que revela, ao menos em aparência, uma normalização precoce de relações que, hoje, soam incompatíveis com os valores de proteção a menores e de tutela pública da Casa Real.
Em termos geopolíticos e simbólicos, essa confluência de eventos — a detenção temporária de Andrew Mountbatten-Windsor por 11 horas, as revelações documentais e a retirada da ex-duquesa para um retiro médico — redesenha, ainda que de modo subterrâneo, as linhas de reputação que sustentam a família real no tabuleiro internacional. Não se tratou apenas de uma crise pessoal; foi um movimento que expôs alicerces frágeis da diplomacia monárquica perante a opinião pública global.
Fontes citadas pelo tabloide afirmam que a Paracelsus é, para Sarah Ferguson, um lugar onde encontra “amor e atenção” além de atendimento médico especializado. Jan Gerber, fundador da unidade, define o espaço como um “santuário” onde indivíduos recebem cuidados de alto padrão sem julgamento — uma linguagem que, no campo da gestão de crises, equivale a oferecimento de um perímetro seguro para recalibrar a imagem pessoal.
Não é, contudo, a primeira vez que a ex-duquesa recorre a esse tipo de internação. Registros anteriores indicam que ela já fora atendida na mesma clínica, o que aponta para uma relação continuada entre paciente e instituição. Essa recorrência revela uma estratégia de longo prazo de gestão de saúde mental e imagem pública, algo que, na prática, funciona como uma defesa organizada contra o desgaste de escândalos repetidos.
É importante sublinhar que, apesar do dramatismo dos detalhes, o quadro que se impõe exige prudência analítica: há distinção entre responsabilidade criminal comprovada e laços sociais questionáveis. No entanto, a percepção pública tende a colar as peças numa narrativa linear de culpa, sobretudo quando nomes e cargos elevados se entrelaçam com atos condenáveis.
Como analista diplomático, observo que o episódio representa um microcosmo de transformações mais amplas: a tectônica de poder entre elite, imprensa e justiça. A imprensa expõe, o judiciário apura, e as figuras públicas buscam espaços seguros para mitigar o dano — movimentos que lembram uma série de aberturas e respostas em partidas de xadrez, onde cada retirada pode ser tanto uma concessão tática quanto uma preparação para um contra-ataque.
Finalmente, a escolha de Sarah Ferguson pela Paracelsus Recovery deve ser lida como uma jogada de contenção. Em curto prazo, oferece proteção e tratamento; em médio prazo, permite que a casa real e seus assessores reavaliem como reagir perante uma opinião pública exigente e uma mídia que redistribui o peso do escândalo internacionalmente. A estabilidade das relações de poder, nesse tabuleiro complexo, depende da capacidade de transformar abalos reputacionais em passos calculados de recuperação.
Assinatura: Marco Severini — Espresso Italia. Análise geopolítica e de estratégia internacional.






















