Por Marco Severini — Espresso Italia
Em um movimento que redesenha, mais uma vez, a geografia invisível do poder internacional, Peter Mandelson, 72 anos, foi detido nesta segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, em Camden Town, Londres, sob a acusação de “má conduta em cargo público”. A prisão integra o amplo desdobramento do escândalo do financista Jeffrey Epstein, cujo legado de abuso e redes de influência continua a provocar colapsos nos alicerces da diplomacia ocidental.
Mandelson — figura tutelar da tradição labour desde os anos 1980 e notória como conselheiro de alta gramática política durante o ciclo Blair — estava recentemente no centro de uma nomeação controversa: em dezembro de 2024 foi designado embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos pelo primeiro-ministro Keir Starmer. A nomeação, impulsionada por aliados como Morgan McSweeney, já vinha sendo questionada publicamente, dado o histórico de ligações entre Mandelson e Epstein.
A detenção ocorre na esteira do episódio que levou, na manhã de 19 de fevereiro, à prisão do ex-príncipe Andrew na propriedade real de Sandringham, sob a mesma imputação de “má conduta em cargo público”. As semelhanças formais das acusações sublinham um padrão: a suspeita de partilha e encaminhamento de informações sensíveis a figuras do círculo de Epstein durante o exercício de funções públicas.
Documentos associados ao chamado “Epstein files” apontam para pagamentos e comportamentos que agravam a percepção pública do caso. Entre os elementos revelados estão transferências no total de 75 mil dólares — descritas como três créditos de 25 mil cada — além de imagens potencialmente embaraçosas que circulam nas novas peças documentais. Em resposta às revelações, Mandelson já havia renunciado a posições formais: deixou recentemente a Câmara dos Lordes e retirou-se do Partido Trabalhista.
Do ponto de vista estratégico, este episódio é uma jogada que altera o tabuleiro político britânico. O governo de Starmer já sente erosões: demissões próximas do núcleo palaciano, queda da popularidade pessoal do premiê e uma migração de eleitores para forças mais radicais no espectro direito. A tectônica de poder se mostra, aqui, instável — cada nova peça retirada do tabuleiro cria espaços que adversários tentam explorar.
Há que se observar não apenas o impacto imediato sobre carreiras e reputações, mas também as implicações institucionais. A acusação de “má conduta em cargo público” implica uma análise do uso de privilégios e da confidencialidade inerente a postos de Estado, e põe em xeque a credibilidade de nomeações feitas a partir de circuitos de influência. Em termos de diplomacia prática, trata-se de um alerta: laços pessoais e favores privados têm força para comprometer canais oficiais.
Enquanto as investigações prosseguem, o episódio exigirá decisões construtivas por parte de Londres: apurar responsabilidades, proteger segredos de Estado e restaurar confiança. A maturidade do sistema político será avaliada pela sua capacidade de mover as peças do tabuleiro de modo a recompor estabilidade sem renunciar à transparência.
Resumo dos fatos essenciais:
- Data da prisão: 23 de fevereiro de 2026, Camden Town, Londres.
- Acusação: “Má conduta em cargo público” ligada ao caso Jeffrey Epstein.
- Contexto: Mesma acusação que levou à prisão do ex-príncipe Andrew em 19 de fevereiro, em Sandringham.
- Repercussões: Renúncias anteriores de Mandelson à Câmara dos Lordes e ao Partido Trabalhista; questionamentos sobre a nomeação como embaixador por Keir Starmer.
Em um cenário onde a diplomacia se confunde com redes privadas de influência, a lição é clara: sem salvaguardas institucionais robustas, as fundações da ordem internacional ficam expostas — e movimentos calculados no tabuleiro de poder podem tornar-se, de repente, jogadas fatais.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional na Espresso Italia.





















