Marco Severini – A documentação que emergiu sobre o Caso Epstein tem a aparência de um mosaico irregular: e-mails privados, depoimentos judiciais, documentos processuais de confiabilidades distintas. Essa fragmentação, longe de enfraquecer a gravidade do conjunto, descortina uma conclusão perturbadora: não se trata de um escândalo circunscrito a uma só ala política, mas de uma interseção que atravessa todo o espectro do poder neoliberal ocidental. Quando a transgressão não serve como arma retórica contra um adversário identificável, o sistema opta pelo entorpecimento público — a neutralização pela indiferença.
O mecanismo é conhecido: diante da impossibilidade de enquadrar o fato em um único adversário, parte da mídia dominante recorre a um desvio narrativo. Instala-se um reflexo automático anti-Rússia, que funciona como um recipiente simbólico para todo mal que seria inconveniente investigar nas próprias casas de poder. A externalização do problema — transformar uma falha interna em causa externa — é uma técnica de gestão de crises tão antiga quanto eficaz: quando a arquitetura que sustenta o poder é exposta, prefere-se redesenhar a fachada discursiva em vez de reconstruir os alicerces.
Se ao menos parte do que é alegado se confirmar, estaríamos diante de práticas que, longe de ser desvios isolados, remetem a atrocidades condenadas por qualquer civilização que tenha trocado favores por impunidade. O núcleo político do caso não é apenas moral, mas institucional: a percepção de uma elite estranha — se não hostil — ao corpo social que supostamente governa. Sem uma mobilização autónoma da sociedade civil, não cooptada por legendas partidárias, o risco real é que o episódio seja engolido pelo ciclo midiático e arquivado como mais uma notícia fugaz. Isso significaria a confirmação de uma fratura irreparável entre poder e sociedade.
Enquanto o Ocidente discute o espetáculo do escândalo, o front ucraniano assistiu ao término da chamada “tregua do gelo” e a um recrudescimento imediato da violência. Ataques russos de larga escala — combinando mísseis balísticos, de cruzeiro, sistemas hipersônicos e enxames de drones — foram orientados com precisão estratégica contra a malha energética do país. Centrais termoelétricas, subestações de 750 kV e nós de transmissão fundamentais foram visados com a intenção declarada de desconectar o sistema nacional. A consequência é dupla: degradar a capacidade estatal de sustentar o esforço de guerra e, simultaneamente, ampliar o sofrimento civil num inverno já de si rigoroso.
Do ponto de vista do direito internacional humanitário, a questão adquire contornos trágicos e juridicamente angulares. Infraestruturas de uso dual — civis e militares — colocam em tensão os princípios da distinção e da proporcionalidade. Atacar um elo energético que sustenta funções militares pode ter legitimidade operacional; porém, se o efeito previsível é a desintegração de serviços essenciais à população civil — aquecimento, hospitais, água potável —, a legalidade converge com a ética na necessidade de limitar danos colaterais. A guerra, entretanto, tem se mostrado uma lógica impiedosa: no tabuleiro, o sacrifício dos alicerces civis passa a ser calculado como um meio para um fim estratégico.
Há aqui duas linhas que se cruzam como placas tectônicas: por um lado, a erosão da confiança pública diante da impunidade percebida das elites ocidentais; por outro, o redesenho silencioso das fronteiras de segurança e vulnerabilidade, onde a infraestrutura se transforma em peça-chave da dissuasão e do dano. No coração de ambos está a mesma pergunta simples e incômoda: quem governa quando as regras que deveriam salvaguardar a vida coletiva são subvertidas por práticas de privilégio ou por lógicas de destruição estratégica?
Uma resposta exige prudência, mas também firmeza. Prudência para não confundir análise com panfletagem; firmeza para exigir mecanismos de responsabilização que não se percam na névoa midiática. A estabilidade das relações de poder exige instituições fortes que resistam tanto ao abuso interno quanto à instrumentalização do conflito externo. Numa linguagem de estratégia: é preciso reposicionar as peças no tabuleiro de modo a restaurar alicerces, não apenas rearranjar fachadas.
O desafio é monumental. A política que vem depois deste duplo choque — impunidade de cúpulas e brutalização da guerra — dependerá da capacidade da sociedade de articular uma resposta que concilie justiça, segurança e a reconstrução dos laços que fazem uma comunidade ser legítima aos olhos de seus governados. Sem isso, permaneceremos num jogo em que as regras favoráveis às elites definem os movimentos, enquanto milhões pagam com seus invernos e suas vidas.






















