Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha peças no tabuleiro da memória pública, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos colocou on-line o último lote de documentos relacionados a Jeffrey Epstein: aproximadamente 3 milhões de páginas, cerca de 2.000 vídeos e por volta de 180.000 fotos. Trata-se de um arquivo massivo, agora acessível por meio de um índice público no site governamental conhecido como Epstein Library, com mecanismo de busca interno e documentos sujeitos a cortes para remover informações sensíveis, como endereços e contatos.
O prazo de 19 de dezembro de 2025 para a publicação integral das peças já havia vencido; ainda assim, o governo decidiu liberar o que classifica como o material “final”, incluindo conteúdo pornográfico recuperado dos dispositivos do financista que morreu em prisão por suicídio. Dada a natureza delicada do acervo, o acesso exige verificação de idade: menores de 18 anos estão explicitamente proibidos de consultar as novas pastas.
Entre os papéis que emergem das profundezas deste repositório, salta aos olhos uma mensagem eletrônica em que Jeffrey Epstein teria enviado a si mesmo, em 2018, uma carta envolvendo o nome de Bill Gates. Segundo relato do Daily Mail, a mensagem sugere que Gates teria contraído uma doença sexualmente transmissível após relações com mulheres de origem russa e que teria pedido a Epstein para intermediar um antibiótico destinado a Melinda. Importa sublinhar: trata-se de conteúdo presente nos arquivos, cuja veracidade é matéria de investigação e checagem, e que agora passa a ficar disponível para o escrutínio público.
O arquivo também contém referências extensas a Donald Trump, citado em cerca de 3.200 ocorrências. Em algumas passagens, o nome do então presidente aparece em artigos e trocas entre os associados de Epstein; em outras, surge em considerações sobre a campanha eleitoral de 2016. Em coletiva, o vice-ministro do Departamento de Justiça, Todd Blanche — que assumiu papel central na revisão dos documentos — afirmou que a revisão seguiu as normas legais e que “não se protegeu ninguém”, negando qualquer interferência da Casa Branca no processo. Blanche, ex-advogado pessoal de Trump, tornou-se o rosto público dessa triagem, substituindo a visibilidade anterior de figuras como a ex-procuradora Pam Bondi.
Sobre o trabalho de revisão, Blanche detalhou que fotos de mulheres foram removidas, com exceção das imagens de Ghislaine Maxwell, enquanto fotografias de homens não teriam sido suprimidas da mesma forma. Reconheceu, contudo, que o processo, embora minucioso, pode não ter sido infalível — deixando aberta a possibilidade de erros e exposições não intencionais que afetem vítimas.
Do ponto de vista geopolítico e de ordem pública, a liberação desses documentos representa um movimento decisivo no tabuleiro: não é apenas um ato de transparência, mas um redesenho de fronteiras invisíveis entre poder privado, figuras públicas e instituições. A tectônica de poder que envolve nomes, influências e acusações manterá governos, escritórios de advocacia e investigadores em alerta. Resta à opinião pública, e ao sistema judiciário, interpretar as evidências sem confundir linguagem documental com veracidade processual.
Em última análise, a publicação integral — acompanhada de garantias parciais de anonimato e de restrições de acesso — revela alicerces frágeis da diplomacia privada e convida a uma leitura cautelosa e metódica. O arquivo está agora disponível para consulta; sua abertura marca uma nova etapa, onde fatos, conjecturas e a memória institucional disputarão espaço sob o farol do escrutínio público.






















