Por Marco Severini — A decisão do governo austríaco de transformar a casa natal de Hitler, em Braunau am Inn, num comissariado de polícia reacende um debate delicado sobre memória, responsabilidade estatal e simbolismo político. O imóvel, objeto de uma lei de confisco aprovada em 2016, foi comprado para interromper a atração de grupos de extrema-direita e evitar que o local se tornasse um santuário ideológico.
A Áustria, anexada pela Alemanha de Hitler em 1938, continua a enfrentar críticas por não ter assumido por completo a responsabilidade histórica pelo Holocausto, no qual seis milhões de judeus europeus foram exterminados. Em BraunaU, a efeméride permanece visível: em frente ao prédio há uma pedra com a inscrição — “Por paz, liberdade e democracia. Nunca mais o fascismo. É o alerta de milhões de mortos” — um sinal físico de memória num espaço urbano estreito e comercial.
Os trabalhos de recuperação do edifício, cujo custo atingiu cerca de 20 milhões de euros, estão quase concluídos, e o Ministério do Interior anunciou que o comissariado deverá entrar em funcionamento no segundo trimestre de 2026. Para o gabinete estatal, a ocupação por parte da polícia representa uma forma concreta de neutralizar a carga simbólica do local e impedir peregrinações extremistas.
No entanto, vozes da sociedade civil e das vítimas contestam a escolha. Ludwig Laher, representante do Comitê da Áustria de Mauthausen, que fala em nome das vítimas do Holocausto, afirmou que a instalação de uma delegacia é problemática: “a polícia, em todos os sistemas políticos, tem o dever de proteger o que o Estado deseja” — uma observação que põe em relevo a tensão entre o papel institucional da força pública e o imperativo moral da memória.
Segundo Laher, a alternativa de converter a casa num centro de encontros e promoção da paz havia obtido amplo apoio. A proposta vislumbrava transformar o edifício num espaço pedagógico e de reflexão, um contraponto deliberado à tentação de apagar ou domesticar a história. A escolha do Estado, contudo, confirma um movimento decisivo no tabuleiro político: optar pela presença pública da autoridade — a mão visível da administração — em vez de um lugar dedicado à lembrança ativa.
Nos últimos anos, a Áustria deu passos lentos, mas perceptíveis, no reconhecimento das suas responsabilidades históricas: apenas no ano passado duas ruas de Braunau que homenageavam dirigentes nazistas foram renomeadas, um gesto que sinaliza mudança, porém insuficiente para muitos observadores.
O debate sobre a função do imóvel revela camadas de tectônica de poder: trata-se de decidir se um símbolo controverso deve ser neutralizado por ocupação institucional, transformado em instrumento de memória crítica, ou deixado vazio para que o seu significado seja contestado pela sociedade. Como num jogo de xadrez, cada movimento governamental recalibra não apenas uma peça, mas as linhas de influência e a arquitetura moral do discurso público.
Enquanto as obras terminam e o calendário avança para 2026, permanece a pergunta central: a ocupação policial será a vedação adequada contra a radicalização, ou apenas uma fachada que desloca a responsabilidade de enfrentar o passado? Em última análise, é uma decisão que testa os alicerces frágeis da diplomacia de memória na Áustria e define, de forma simbólica, o lugar que o país pretende ocupar no mapa moral da Europa contemporânea.





















