Carnaval de Ivrea entra em seu auge no domingo, 15 de fevereiro de 2026, com a realização da emblemática Batalha das Laranjas, ato central da festa que conjuga memória histórica, teatralidade popular e disciplina cívica. A manifestação terá a participação de nove equipes de aranceri a pé e mais de cinquenta carros de arremesso, numa coreografia que rememora a libertação da cidade de Ivrea.
O confronto simbólico — uma sucessão de lutas por fruta que, nas ruas e praças, transforma espectadores em testemunhas atentas de uma tradição secular — compõe um dia repleto de episódios: praças tomadas por montes de laranjas e estandartes, o Corteo Storico com a figura central da Vezzosa Mugnaia e o papel do General, além do envolvimento ativo de milhares de espectadores. É uma experiência onde memória, espetáculo e participação cívica se sobrepõem como camadas de um mapa histórico.
O calendário do Carnaval já começa a esquentar no domingo anterior, 8 de fevereiro, com a chamada Penúltima: as atenções da manhã se voltam aos carri da getto e aos cavalos, que desfilam ao longo do Corso Massimo D’Azeglio com arreios ornamentados e laterais pintadas, submetidos à avaliação das comissões. A programação inclui as fagiolate rionali, ritos como a Riappacificazione e a Alzata degli Abbà, a passagem do Corteo Storico e o tradicional mercadinho dos aranceri — momentos que preparam o terreno para a batalha principal, conferindo sentido e continuidade à representação.
As origens lendárias do festival remontam à figura de Violetta, filha de um moleiro que, segundo a tradição, teria libertado a cidade ao recusar o opressivo ius primae noctis. A dramatização desse episódio funda a estética do evento: as nove equipes a pé enfrentam-se sem proteções, expondo-se à chuva de frutos, enquanto os aranceri sobre os carros, puxados por cavalos, usam máscaras e proteções que evocam antigas armaduras. Além do espetáculo, cada confronto termina com um aperto de mão entre adversários — um gesto de respeito que confirma o caráter comunitário e leal da festa.
Como analista que observa a cena internacional sob a ótica dos alicerces e deslocamentos de poder, vejo na Batalha das Laranjas mais que um folguedo: um ritual de reafirmação da autonomia local e da justiça popular, um movimento simbólico no grande tabuleiro onde se desenha a memória coletiva. A manutenção rigorosa das tradições e a precisão na encenação demonstram uma vontade deliberada de preservar um patrimônio cultural singular, cuja força reside tanto na teatralidade quanto na disciplina social que o sustenta.
Para quem pretende acompanhar, a programação oficial de 2026 promete reforçar os elementos históricos e a participação popular: cortejos, avaliações de carros, ritos de reconciliação e atividades de rua que culminam na Batalha do dia 15. Observadores e turistas são convidados a tomar parte desta tessitura festiva, conscientes de que estão perante uma representação profundamente enraizada nas razões e contradições da história urbana.
Em suma, o Carnaval de Ivrea mantém-se como um reduto de memória e de teatralização cívica: um setor do tecido social onde a tradição opera como desenho de fronteiras invisíveis entre memória e presente, entre festa e reivindicação. Para quem gosta de assistir a movimentos decisivos no tabuleiro cultural europeu, Ivrea oferece, neste fevereiro de 2026, uma partida que vale observar de perto.






















