Por Marco Severini — Em um movimento que altera o tabuleiro geopolítico das Américas, o raide militar americano em Caracas — culminando com a captura de Nicolás Maduro — reativou o debate público sobre os motivos reais por trás da intervenção. À primeira vista, o debate centrou-se no **petróleo venezuelano**, impulsionado por declarações públicas do ex-presidente Donald Trump. Contudo, sob a superfície retórica, a jogada americana parece mirar um objetivo estratégico mais estrutural: o controlo das **matérias-primas críticas** necessárias à **transição energética** e à revolução digital.
Conversei com Giuseppe Sabella, diretor da Oikonova e autor de La grande transizione del capitalismo (Rubbettino, 2025). Sua leitura é de um movimento pensado para redesenhar linhas de abastecimento e reduzir a vulnerabilidade norte-americana frente à concorrência chinesa. O CEO da Exxon Mobil, Darren Woods, afirmou ser “impossível” investir no **Venezuela** nas atuais condições. Isso, porém, não impediu que Washington promova uma operação com fins de longo prazo.
Segundo Sabella, a prioridade dos **EUA** não é exclusivamente o hidrocarboneto. O ponto nodal é a apropriação de recursos como **coltan**, **terras raras**, **cobalto**, **níquel**, **manganês**, **tântalo** e **nióbio** — insumos essenciais para microchips, baterias de íon-lítio, motores elétricos, turbinas eólicas e sistemas aeroespaciais. Controlar esses minerais equivale a controlar cadeias industriais inteiras: quem domina essas matérias-primas molda o ritmo da transição tecnológica.
O papel do **petróleo** é, na visão do analista, secundário e pragmático: gerar fluxos de receita imediatos, aliviar pressões inflacionárias energéticas e dar fôlego econômico durante a transição. No horizonte, porém, os combustíveis fósseis têm perspectivas restritas — já que a ordem tecnológica global se desloca para matrizes renováveis e eletrificação.
Por que isso altera o equilíbrio no continente e intensifica a competição entre **EUA** e **China**? A República Popular estabeleceu, nas últimas décadas, uma vantagem estratégica ao dominar o comércio global de minerais críticos, integrando investimentos em cadeias industriais e infraestrutura em África e América do Sul. O acesso norte-americano às reservas venezuelanas permitiria aos Estados Unidos iniciar a construção de uma cadeia de suprimento ocidental mais resiliente — uma cadeia “fechada” capaz de abastecer indústrias de alto valor sem depender dos humores de Pequim.
Trata-se de uma estratégia de paciência e engenharia: converter potencial mineral em uma supply chain operacional exige anos de investimento, estabilidade regulatória, segurança jurídica e infraestrutura logística. No caso venezuelano, o desafio é amplo: muitas áreas da chamada Arco Mineiro do Orinoco estão sob influência de grupos criminosos, o que impõe riscos operacionais e legais. São os alicerces frágeis da diplomacia e da economia que precisam ser reconstruídos para que a peça avance no tabuleiro.
Quanto a impacto na **transição energética** global, já se observa uma mudança de maré: os investimentos em energias limpas cresceram fortemente, deslocando capitais históricos dos combustíveis fósseis. No entanto, a velocidade da revolução verde dependerá da disponibilidade e do custo desses minerais. Sem **terras raras** e metais estratégicos em quantidades acessíveis, a implantação massiva de tecnologia verde — desde turbinas eólicas até veículos elétricos e semicondutores avançados — ficará comprometida.
Em termos geopolíticos, a operação em Caracas é um movimento decisivo, mas não definitivo. É uma tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis de influência — um reconhecimento de que a nova riqueza estratégica não é exclusivamente líquida, mas mineral e tecnológico. A tectônica de poder entre Washington e Pequim continuará a se mover por décadas, e o sucesso dessa iniciativa dependerá da capacidade americana de transformar recursos em indústria, estabilidade institucional e governança responsável.
Para a América Latina, o episódio é um aviso e uma oportunidade: o controle dos recursos pode significar desenvolvimento, mas também expõe países à competição entre potências. A solução exige políticas soberanas e parcerias que promovam transparência, segurança e benefício local — caso contrário, estes territórios correm o risco de se tornar meros pontos em um mapa estratégico alheio.






















