Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um episódio que evidencia a fragilidade dos alicerces da diplomacia em territórios contestados, o Exército israelense (IDF) reconheceu ter cometido um erro ao deter dois Carabinieri italianos na Cisjordânia. O caso ocorreu em 25 de janeiro, nas imediações de Ramallah, quando os militares, em serviço no Consulado‑Geral da Itália em Jerusalém, foram obrigados a descer do veículo diplomático e a se ajoelharem sob a mira de uma arma.
Nas primeiras horas após o incidente, circularam relatos de que os militares teriam sido interceptados por um colono armado. Posteriormente, porém, a versão oficial fornecida pelo IDF à Radio Gerusalemme mudou: teria sido um soldado do exército regular que encerrou a ação, alegando ter identificado um veículo em uma rota proibida ao tráfego civil numa área classificada como “zona militar fechada”.
Segundo a narrativa apresentada pelos militares israelenses, o soldado não teria inicialmente reconhecido a placa diplomática, classificando o automóvel como potencialmente suspeito. Teria então sido ordenado aos ocupantes que descessem e se identificassem, com as armas apontadas, e só após a conferência dos documentos os dois Carabinieri teriam sido liberados.
Do lado italiano, a análise e a indignação foram rápidas e institucionais. Fontes da Farnesina relataram que os dois militares foram forçados a ajoelhar‑se perante a ameaça de um fuzil metralhador enquanto realizavam um reconhecimento preparatório para uma missão de embaixadores da União Europeia. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, qualificou o fato como “inaceitável” e convocou o embaixador israelense para esclarecimentos.
Uma verificação posterior junto ao Cogat, o comando militar israelense responsável pelos Territórios Palestinos, teria indicado que naquele ponto não existe oficialmente uma área militar fechada, o que adiciona uma camada de inconsistência à versão apresentada pelo IDF. O episódio reacende a questão mais ampla da segurança e da liberdade de movimentos de missões diplomáticas em uma região onde a tensão entre colonos, população local e forças de segurança recalibra constantemente o mapa prático de controle.
Em Roma, o ministro da Defesa, Guido Crosetto, aproveitou para reforçar que eventuais projetos italianos de formação para palestinos não ocorrerão dentro da Faixa de Gaza ou em Rafah, mas em locais externos, para garantir a segurança do pessoal. Tajani, por sua vez, insistiu no papel que a Itália pretende desempenhar na região após a guerra, garantindo presença e apoio no processo de reconstrução e estabilidade.
Do ponto de vista estratégico, o incidente é sintomático: revela um ponto de atrito entre intenções diplomáticas e a lógica operacional no terreno. Em termos de geopolítica, trata‑se de um movimento tático que expõe os riscos de um tabuleiro onde sinais mal interpretados ou rotações de comando podem transformar uma manobra de segurança em uma crise diplomática. A resposta italiana — firme, mas institucional — busca manter o equilíbrio de influência e evitar um recrudescimento desnecessário das tensões.
Enquanto as investigações prosseguem e as conversas entre Roma e Tel Aviv continuam, permanece a necessidade de clarificar regras de engajamento e corredores seguros para missões diplomáticas, evitando que pontos de controle informais reconstruam, de forma invisível, fronteiras de presença e intimidação.






















