A justiça da Hungria pronunciou nesta semana uma sentença de oito anos contra a ativista antifascista alemã Maja T., decisão que ecoa como um movimento decisivo no tabuleiro das relações entre Bruxelas e Budapeste. O veredito diz respeito a episódios de violência ocorridos em 2023 à margem do chamado “dia da Honra”, o tradicional encontro anual de grupos de extrema direita em Budapeste.
Segundo a acusação, Maja T. integrava um grupo de 20 antifascistas europeus imputados por agressões cometidas com bastões contra nove militantes de extrema-direita. A ativista — definida pela imprensa como não binária e identificada nas autoridades húngaras como cidadã alemã de 24 anos — foi extraditada da Alemanha e está detida em Budapeste há aproximadamente 18 meses, em regime que ela mesma qualificou como de isolamento e tratamento degradante.
No processo, a promotoria pedia uma pena de 24 anos por crimes que incluiriam tentativa de agressão agravada com lesões potencialmente letais e participação em organização criminosa. A sentença final, de oito anos, foi recebida entre críticas de defensores dos direitos civis e manifestações de satisfação por porta-vozes do governo húngaro.
Em tom de campanha, o porta-voz do primeiro-ministro Viktor Orbán, Zoltan Kovacs, publicou no site X que “a cúmplice de Ilaria Salis, a terrorista antifa Maja T., foi condenada em primeira instância”. A retórica oficial, mais do que um comentário jurídico, funciona como um desenho de influência: a acusação e a comunicação pública convergem para criar um mapa de responsabilidades com utilidade política no contexto eleitoral.
Em sua fala no tribunal, Maja T. afirmou saber que tipo de condenação o premier deseja e expressou a esperança de retornar à Alemanha após o veredito. Presente à audiência, o pai da ativista lançou um apelo final ao juiz em defesa da filha. Tanto ela quanto a eurodeputada Ilaria Salis — também implicada no mesmo processo — denunciaram pressões do governo sobre o judiciário e alegaram a inexistência de garantias para um julgamento justo e independente.
O episódio mobilizou atores internacionais: o eurodeputado Martin Schirdewan, do partido Die Linke, qualificou como “escândalo jurídico” a decisão de processar a ativista em tribunais húngaros, apontando que o caso teria dimensões políticas e eleitorais. Observadores de direitos humanos e advogados internacionais acompanham as alegações de ilegalidade do procedimento de extradição e as condições de detenção.
Do ponto de vista estratégico, este julgamento não é apenas um episódio penal: é um reposicionamento das peças no tabuleiro europeu. A sentença contra Maja T. altera a tectônica de poder regional, testando a resiliência das instituições judiciais húngaras frente às críticas externas e reconfigurando, de maneira invisível mas concreta, as fronteiras da contestação política.
Enquanto a defesa prepara recursos e as instituições europeias observam, permanece a pergunta central para diplomatas e analistas: que precedentes este caso estabelecerá para ativistas transnacionais e para a relação entre magistratura e execuivo em um país do qual dependem, também, os alicerces das negociações comunitárias?






















